Um fênomeno: a concepção. Incríveis e árduas são a vontade do corpo manter sua existência na Terra e as maneiras com as quais tal manutenção ocorre. Singamia, Cariogamia, formação do embrião. Sucessivas clivagens e o rascunho do que mais tarde virá a ser o resultado da incessante vontade do organismo perpetuar sua espécie está pronto. A intenção não é romancear o simples crescer de uma barriga, o carregar de um pequenino ser - dependendo do ponto de vista, de um parasita -, mas sim de refletir até que ponto se pode manipular a vida, ou melhor, a morte... Tento não confluir meus pensamentos para fatores, diria, subjetivos, como "o que é certo e o que é errado", no entanto me pergunto: seria justo controlar, seja na própria ou na vida de outros, quando e como fechar-se-ão os olhos sem o novo despertar para mais uma manhã?
...
Era só um menino. Crescera com a mãe, fora educado pela mãe, nunca lhe faltou nada. "Mamãe, estou com fome" ; "Mamãe, estou com sede" ; "Mamãe, é natal. Quero uma bicicleta nova." . Todos os pedidos, implícitos ou explícitos, eram atendidos. Sem titubear, "mamãe" estava sempre ali. O menino cresceu. Se deparou com barreiras, dificuldades, responsabilidades. Superou-as, venceu-as, cumpriu-as. Tinha tudo para ser mimado, mas conseguiu enxergar o que, muitas vezes, os olhos não veem : Não precisamos errar para aprender.
O menino, junto de sua mãe, em um dia festivo como esses de feriados, comemorações célebres etc, já em sua mocidade, passou a tarde conversando. Com ela, almoçou, riu, ficou em silêncio, falou sobre problemas, assuntos sérios... Enfim, nada passava de um encontro informal entre filho e mãe. Enquanto falavam-se de problemas alheios, não em tom de fofoca, mas com ar de preocupação por parte de Maíra - a mãe -, afinal de contas tratava-se de alguém com enorme zelo e preocupação com as pessoas a seu redor, foi citado o caso de uma amiga que vinha sofrendo ameaças de seu marido e que até a um aborto ela foi submetida quando tinha 17 anos, por pressão de seu conjuge.
- "Que absurdo. Dois absurdos, né, mamãe?! Engravidar aos 16 anos e concordar com um aborto."
Dois segundos se passaram e os olhos de Maíra pareciam trazer das profundezas de seus interiores uma verdade há muito tempo oculta. Rápido, porém intenso e altamente epifânico foi o sentimento de Maíra, analisado por Liseri e repensado por várias vezes após o episódio.
- "Acho que você já tem idade para saber de uma coisa, Liseri... Sua mãe já fez um aborto."
- "Você, mamãe?!?!"
- "Pois é, meu filho... quando somos novas e inseguras, acabamos aceitando determinadas imposições por fraqueza ou falta de experiência."
O papo, naquele momento, foi cessado. Liseri ficou espantado. Afinal, acabara de saber que o irmão por ele sempre sonhado e, depois de uma certa idade, impossível, existiu. Existiu, mas nem ele nem ninguém, além do médico que o retirou da barriga de sua mãe como se fora um verme, um parasita, pôde conhecer seu irmão. Nada foi comentado. Nada foi perguntado. Quem foi o pai, há quanto tempo isso tinha acontecido... Nada. Apenas a informação necessária, naquele momento, foi dada. Sua mãe fizera um aborto e, consequentemente, eliminara a vida de seu irmão.
Liseri cresceu e seguiu seu caminho como qualquer pessoa. Conseguiu uma vida digna e honrada a partir de seu trabalho. Mesmo assim, Maíra nunca deixou de se preocupar com seu filho. Sempre ligava, tentava cuidar, mesmo quando sem necessidade, em suma, era mãe. Liseri se conformava com a fato de mães, em geral, constituirem um grupo bem à parte no que diz respeito aos cuidados com seus filhos, mas depois da confissão, ele se pegava pensando na possibilidade da superproteção, do mimo de sua infância e outras coisas mais ligadas à Maíra estarem relacionadas ao possível arrependimento pelo qual ela passava desde a má interpretação de sua primeira concepção - leia-se: parasitismo - .
...
Foi justo? A resposta não pode se sustentar na simples vontade de Liseri ter um irmão quando mais novo, e sim na profundidade em que as consequencias de seu assassinato se consistem. Isso. Mataram-no, em bando, sem o direito de defesa, friamente e bastante calculado, principalmente por parte do negociante de medicina, que esperava receber sua recompensa após tal virtuosa feitura.. Por isso, assassinato.
Nota: Errando, sempre se aprende.
Perdoe a parcialidade.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
Em meu relógio, apenas os segundos.
Era um momento daqueles... Ela chega, eu paro. Fito-a, do outro lado da calçada, de forma insaciável, incomparável, incansável... Ela, abundada em luxo e elegância, tira os óculos da cabeça, arruma o cabelo, põe os óculos e dá uma olhada, já apressada, no relógio de pulso em sua mão esquerda. Seus movimentos me atraem, sua postura me impressiona e sua voz... Sua voz é linda. Se eu já a ouvi? Não, ainda não. Mas meus pensamentos me permitem imaginar a doçura daquilo que nela ainda não vejo. O sinal abriu. Nós pudemos, então, atravessar. A cada passo, mais fortes, mais acelerados e mais imponentes eram meus batimentos cardíacos. A cada passo, mais linda ela ficava com seus cabelos soltos levemente ondulados. A cada passo...
- Perdão! A senhora poderia me arranjar uma moeda?
Pois é. Saindo um pouco de meus pensamentos, de minha ilusão, existia uma grande barreira, tão forte quanto chumbo, que me distanciava da moça, mesmo em uma situação paradoxal como o esbarrão, cuja distância foi nula, quase íntima. Ela era rica, e eu, pobre. Com minha lata na mão, fiquei ali, no meio da faixa de pedestres, enquanto ela ia embora. Foi quando minha amada chega na calçada em que eu estava, pára, olha pra trás, olha pra mim e me chama. Saí correndo, não mais pensando na moeda ou em qualquer outro tipo de ajuda financeira. A mim, interessava apenas uma coisa: a retribuição do meu amor. Sim. Amor. Durante aquele momento, a amei. Amei aquela moça. Um sentimento que vinha de dentro, nascia em minhas entranhas.
- Está aqui a sua moeda, menino. Qual é o seu nome?
- Pedro, senhora. Meu nome é Pedro.
- E cadê a palavrinha mágica?
- Obrigado, senhora.
- Não precisa me chamar de senhora. Agora, vá. Nunca deixe de estudar, Pedro.
Foi lindo. Eu senti. Senti que amei e que fui amado. Ela me amou tão profundamente quanto eu a amei. Ela era linda. Sei também que, naquele momento, eu também fui. Vivo na rua porque quero. Vivo na rua porque adoro ter vários amores e ser amado por várias. Venho da vadiagem, dos becos de escuridão. Será loucura? Obsessão? Não sei. Só sei que mais valem os segundos diários de meus sinais do que uma vida pacata e sem amores.
Ah... a voz dela era linda.
- Perdão! A senhora poderia me arranjar uma moeda?
Pois é. Saindo um pouco de meus pensamentos, de minha ilusão, existia uma grande barreira, tão forte quanto chumbo, que me distanciava da moça, mesmo em uma situação paradoxal como o esbarrão, cuja distância foi nula, quase íntima. Ela era rica, e eu, pobre. Com minha lata na mão, fiquei ali, no meio da faixa de pedestres, enquanto ela ia embora. Foi quando minha amada chega na calçada em que eu estava, pára, olha pra trás, olha pra mim e me chama. Saí correndo, não mais pensando na moeda ou em qualquer outro tipo de ajuda financeira. A mim, interessava apenas uma coisa: a retribuição do meu amor. Sim. Amor. Durante aquele momento, a amei. Amei aquela moça. Um sentimento que vinha de dentro, nascia em minhas entranhas.
- Está aqui a sua moeda, menino. Qual é o seu nome?
- Pedro, senhora. Meu nome é Pedro.
- E cadê a palavrinha mágica?
- Obrigado, senhora.
- Não precisa me chamar de senhora. Agora, vá. Nunca deixe de estudar, Pedro.
Foi lindo. Eu senti. Senti que amei e que fui amado. Ela me amou tão profundamente quanto eu a amei. Ela era linda. Sei também que, naquele momento, eu também fui. Vivo na rua porque quero. Vivo na rua porque adoro ter vários amores e ser amado por várias. Venho da vadiagem, dos becos de escuridão. Será loucura? Obsessão? Não sei. Só sei que mais valem os segundos diários de meus sinais do que uma vida pacata e sem amores.
Ah... a voz dela era linda.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Nota.
Tão mais fácil é criticar aquilo cujo conteúdo foge de nosso alcance de compreensão, de nosso foco, de nosso gosto... A palavra 'crítica' vem de crisis, do grego. Sua raíz etimológica remete ao que constrói ou desconstrói uma idéia, um conhecimento. Exatamente por conta da jornada pela qual esse vocábulo passou, criticar algo desconhecido ou ignorado faz de um indivíduo não só leigo, bem como néscio. Reunir condições e conhecimento sobre um assunto, mesmo que dele descorde, para discutir e conflitar uma tese com uma antítese em busca da síntese, é algo admirável, afinal trata-se de um refino do pensamento. Criticar positivamente é ótimo. Criticar desconstruindo não é ruim, pelo contrário, é tão importante quanto o elogio, pois mostra ao agente de uma ação onde deve haver a melhora. O grande problema, inerente ao homem, é o pré-conceito formado ao analisarem-se apenas a aparência, a superficialidade. Quando cada um mergulha para seu próprio interior, a crítica é pertinente, mas no momento em que crisis desvirtua-se para uma crise... Esqueça! Critique-se.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Quimera etimológica
As ondas que calam,
O ardor que os olhos me fecha,
A janela de ontem que, hoje, não mais está aberta...
Tremo, penso, me acho um covarde.
Com os outros, preocupo-me e, comigo, um dia hei de tentar.
São as responsabilidades com as quais me cerco,
Mas serei eu aquele a quem sufocar?
Alguns são festivos, outros, altivos e ele é,meramente, admirado.
A nobreza de outrora é incompreendida,
Confundida com busca pela glória.
Ele sou eu e eu sou ele. – Consegues plenamente me decifrar? -
Que pena! Tivesse admirar a mesma raiz de amar
E o sol novamente dançaria na casa.
Quem sabe um dia não penso em me cuidar?!
O ardor que os olhos me fecha,
A janela de ontem que, hoje, não mais está aberta...
Tremo, penso, me acho um covarde.
Com os outros, preocupo-me e, comigo, um dia hei de tentar.
São as responsabilidades com as quais me cerco,
Mas serei eu aquele a quem sufocar?
Alguns são festivos, outros, altivos e ele é,meramente, admirado.
A nobreza de outrora é incompreendida,
Confundida com busca pela glória.
Ele sou eu e eu sou ele. – Consegues plenamente me decifrar? -
Que pena! Tivesse admirar a mesma raiz de amar
E o sol novamente dançaria na casa.
Quem sabe um dia não penso em me cuidar?!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Deixando a chuva cair
Tudo corria na mesma naturalidade de uma manhã quente e agradável. A natureza respeitava seus ciclos e necessidades. O Sol, com seu brilho invejável, animava o grupo de colegas verdes a iniciar seu processo de auto sustentação que, por conseguinte, era responsável pelo equilibrio de toda uma cadeia alimentar. Insetos, como eu, voavam e pulavam. Como toda diversão deve ser preenchida por uma pitada de aventura, os predadores enfeitavam toda a brincadeira com os sustos que nos pregavam. Era a dramatização diária de nossas vidas, um notório teatro.
Estava em início de vida, na batalha, esforçando-me para a presa de cada dia. Um tanto quanto imatura, afinal era uma joaninha que, mesmo ametábola, não passara por certas transformações que só o tempo pode oferecer. Eis que um fenômeno de suma importância para tentativa de busca do almejado equilíbrio acontece, o qual nunca tinha sido presenciado por mim. Insegura mas, ao mesmo tempo, curiosa, a infante joaninha, parada no solo entre diversas amigas gramíneas, observa o movimento de um corpo admirável a favor da gravidade: uma gota.
"- Chuva!" - gritou Lelé, a roseira do fundo do jardim. Foi então que tive contato pela primeira vez com a chuva, um fato conhecido por mim apenas teoricamente, enquanto 'precipitação convectiva ou de origem orográfica' - detalhes da aula de geografia. Um escândalo! Os que podiam, correram e se abrigaram. Os fixos deram início a uma incessante absorção d'água, que em poucos instantes já se encontrava saturada no solo. O pigmento verde que os faziam dignos da vida ficava cada vez mais vibrante. Era a natureza acontecendo.
Ainda parada, não tive muita reação. Sabia que chovia, no entanto não conhecia a chuva. Como se um enorme reservatório tivesse arrebentado no céu, enormes quantidades de água desciam. Ao longo de seu trajetório, essas grandes quantidades passaram a gotas e, finalmente, perto do solo, já eram gotículas que, ao se impactarem no chão, criavam um tipo de som agradável. Ora um Lá, ora um Si, às vezes um Dó... Aquele fenômeno, assustador porém intrigante, ia se tornando um concerto, uma orquestra, uma sinfonia. Agradava a mim e a meus colegas verdes.
A joaninha cresceu, tornou-se adulta e logo era responsável por muitas tarefas. As chuvas não mais lhe chamavam a atenção, seus antigos companheiros de habitat não eram mais presentes em sua vida psicologicamente, enfim, assim como com a maioria, o sistema lhe engoliu. Ela só pensava em trabalho. O individualismo passou a fazer parte de sua conduta. A cooperação de todos foi esquecida. As diferenças físicas e comportamentais dela e seus antigos colegas não mais eram importantes, muitas vezes confundiam-se com conceitos segregacionistas. Os olhos de criança, puros e curiosos, se corromperam. Tratavam-se , então, de conceitos pré-formados e subjugação. Uma grande mudança no ponto de vista.
Com o decorrer da vida e os obstáculos que ela lhe impos, a infante joaninha que passara a um ser carrancudo e mal humorado, percebeu que a experiência traz o aprendizado, e foi aprendendo a essência do companherismo que o pequeno inseto refez os laços de afeto e amizade com os fatores bióticos e abióticos a sua volta. O ar lhe parecia mais leve e gostoso. A chuva, antes esquecida, passava a substituir qualquer maneira de fazer o tempo passar, por sua beleza e musicalidade. A eterna busca por um futuro perfeito pode fazê-lo impróprio e anular o presente. 'Carpe Diem e Carpe Noctum', esse é o lema que a joaninha tenta ensinar até hoje.
Estava em início de vida, na batalha, esforçando-me para a presa de cada dia. Um tanto quanto imatura, afinal era uma joaninha que, mesmo ametábola, não passara por certas transformações que só o tempo pode oferecer. Eis que um fenômeno de suma importância para tentativa de busca do almejado equilíbrio acontece, o qual nunca tinha sido presenciado por mim. Insegura mas, ao mesmo tempo, curiosa, a infante joaninha, parada no solo entre diversas amigas gramíneas, observa o movimento de um corpo admirável a favor da gravidade: uma gota.
"- Chuva!" - gritou Lelé, a roseira do fundo do jardim. Foi então que tive contato pela primeira vez com a chuva, um fato conhecido por mim apenas teoricamente, enquanto 'precipitação convectiva ou de origem orográfica' - detalhes da aula de geografia. Um escândalo! Os que podiam, correram e se abrigaram. Os fixos deram início a uma incessante absorção d'água, que em poucos instantes já se encontrava saturada no solo. O pigmento verde que os faziam dignos da vida ficava cada vez mais vibrante. Era a natureza acontecendo.
Ainda parada, não tive muita reação. Sabia que chovia, no entanto não conhecia a chuva. Como se um enorme reservatório tivesse arrebentado no céu, enormes quantidades de água desciam. Ao longo de seu trajetório, essas grandes quantidades passaram a gotas e, finalmente, perto do solo, já eram gotículas que, ao se impactarem no chão, criavam um tipo de som agradável. Ora um Lá, ora um Si, às vezes um Dó... Aquele fenômeno, assustador porém intrigante, ia se tornando um concerto, uma orquestra, uma sinfonia. Agradava a mim e a meus colegas verdes.
A joaninha cresceu, tornou-se adulta e logo era responsável por muitas tarefas. As chuvas não mais lhe chamavam a atenção, seus antigos companheiros de habitat não eram mais presentes em sua vida psicologicamente, enfim, assim como com a maioria, o sistema lhe engoliu. Ela só pensava em trabalho. O individualismo passou a fazer parte de sua conduta. A cooperação de todos foi esquecida. As diferenças físicas e comportamentais dela e seus antigos colegas não mais eram importantes, muitas vezes confundiam-se com conceitos segregacionistas. Os olhos de criança, puros e curiosos, se corromperam. Tratavam-se , então, de conceitos pré-formados e subjugação. Uma grande mudança no ponto de vista.
Com o decorrer da vida e os obstáculos que ela lhe impos, a infante joaninha que passara a um ser carrancudo e mal humorado, percebeu que a experiência traz o aprendizado, e foi aprendendo a essência do companherismo que o pequeno inseto refez os laços de afeto e amizade com os fatores bióticos e abióticos a sua volta. O ar lhe parecia mais leve e gostoso. A chuva, antes esquecida, passava a substituir qualquer maneira de fazer o tempo passar, por sua beleza e musicalidade. A eterna busca por um futuro perfeito pode fazê-lo impróprio e anular o presente. 'Carpe Diem e Carpe Noctum', esse é o lema que a joaninha tenta ensinar até hoje.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Aquarela da vida
Mais um dia acaba de nascer. Acabo e começo, a todo momento, um novo ciclo em minha vida. São as metamorfoses pelas quais, dia após dia, eu passo. No entanto, tais transformações não se consistem em cima de uma aparência, elas se baseiam nas pequenas, porém várias, perguntas que o interior faz a si próprio. Ora meus pensamentos e vontades pedem inquietudes, companhia, conversa e animação, ora as conversas são de mim comigo mesmo. "Uma solidão própria, escolhida. Como a que a gente precisa de tempos em tempos", diria um grande amigo.
Pois é... O ser humano não é absoluto. Às vezes, falamos coisas com as quais não concordamos, às vezes, seguimos caminhos que não desejamos e, às vezes, um beijo não é passível de um belo romance. Outrora, nos impomos, fazemos das palavras um espelho de nossos anseios, desejamos algo e o fazemos. Relatividade, todos nós a temos conosco. Somos como um aquarela, diria. Ela, somente existente quando há a reunião de cores e uma peça para a sustentação de tais. Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros. Pensamos de uma forma, pois outros pensam de outra. Concordamos com uma idéia, pois outros concordam com outra. Gostamos de alguma coisa, pois existe gosto para tudo. Mas que coisa complicada essa de ser humano, não? Antes a complicação do que a uniformidade! Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela.
Um outro fator, intrínseco, é claro, à aquarela de nossas vidas, é a obra por ela pintada. Composta por diversos quadros, a vida é a representação - ah! quem dera fosse sem comedimentos - dos pontos de vista e das fases em que nos inserimos. Bem como Picasso, que passou, durante sua carreira, por diversas fases, com destaque para o Cubismo e A Fase Azul, nós também fragmentamos os planos e nos entristecemos. A questão é que, mesmo com atitudes consideradas errôneas, sem perspectivas, a felicidade está no fato de sabermos a todo instante que há um desafio: o de largar o que não presta e se apegar às oportunidades. E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura.
O "eu" de todos nós é composto por vários, assim como uma aquarela. Questiono, então, alguns desses que moram dentro da gente. Seria melhor se abafássemos alguns deles? Se deixássemos aqueles cujos desejos são os mais proibidos sobressair? O que seria melhor, realmente não sei. Só sei que, quando pequeno, gostaria de ter desenhado, na escola, o meu céu e a minha árvore respectivamente com colorações laranja e azul, sem ter uma psicóloga falando no ouvido de meus pais quais são os padrões para a normalidade.
Pois é... O ser humano não é absoluto. Às vezes, falamos coisas com as quais não concordamos, às vezes, seguimos caminhos que não desejamos e, às vezes, um beijo não é passível de um belo romance. Outrora, nos impomos, fazemos das palavras um espelho de nossos anseios, desejamos algo e o fazemos. Relatividade, todos nós a temos conosco. Somos como um aquarela, diria. Ela, somente existente quando há a reunião de cores e uma peça para a sustentação de tais. Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros. Pensamos de uma forma, pois outros pensam de outra. Concordamos com uma idéia, pois outros concordam com outra. Gostamos de alguma coisa, pois existe gosto para tudo. Mas que coisa complicada essa de ser humano, não? Antes a complicação do que a uniformidade! Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela.
Um outro fator, intrínseco, é claro, à aquarela de nossas vidas, é a obra por ela pintada. Composta por diversos quadros, a vida é a representação - ah! quem dera fosse sem comedimentos - dos pontos de vista e das fases em que nos inserimos. Bem como Picasso, que passou, durante sua carreira, por diversas fases, com destaque para o Cubismo e A Fase Azul, nós também fragmentamos os planos e nos entristecemos. A questão é que, mesmo com atitudes consideradas errôneas, sem perspectivas, a felicidade está no fato de sabermos a todo instante que há um desafio: o de largar o que não presta e se apegar às oportunidades. E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura.
O "eu" de todos nós é composto por vários, assim como uma aquarela. Questiono, então, alguns desses que moram dentro da gente. Seria melhor se abafássemos alguns deles? Se deixássemos aqueles cujos desejos são os mais proibidos sobressair? O que seria melhor, realmente não sei. Só sei que, quando pequeno, gostaria de ter desenhado, na escola, o meu céu e a minha árvore respectivamente com colorações laranja e azul, sem ter uma psicóloga falando no ouvido de meus pais quais são os padrões para a normalidade.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
À Lua, um olhar não basta
O dia cai, o céu está limpo, uma música ao fundo. A engenharia da natureza mais uma vez faz de nós uma platéia que, incessantemente, bate palma com seu espetáculo: o aparecimento da Lua. Cintilante aos olhos e à mente de qualquer um, a Lua se mostra como um corpo celeste e encantador, causador de profunda admiração àqueles que, seja por um momento apenas, conferem a ela certa dose de atenção. Por seu langor, por sua maneira amistosa de lidar com as pessoas, por sua forma sinestésica de aparecer docemente, apelidei-a com uma série nomes, cada qual sendo usado adequadamente no momento oportuno. Minha amiga, minha namorada e menina dos olhos do mundo, aparece de diversas formas, tendo um quê camaleônico em seu interior. Quando triste com as atitudes humanas sobre o cenário em que ela aparece, a Lua se vira e, minguada, não dá papo a ninguém. Após uma bela comilança, ela, empanturrada, resolve, cheia de preguiça, não mais falar nada, e, sim, ouvir, ouvir e ouvir. - Dentre as juras de amor por ela ouvidas, sobram até algumas designadas a própria: "Alva como a neve,/ é a sua pele./ Iluminada de várias formas,/ beleza que não deforma./ Assim é você,/ singela, mas com poder".:Castro Alves. Depois de uma boa soneca, ela vem e dá o ar da graça em sua forma mais jovial de ser, crescente, avante, para frente. Finalizando o show de efeitos ópticos, a menina dos olhos do mundo mostra-se nova, provando que todos podem mudar aquilo em que não há satisfação.
Sempre me encantei com a Lua. Desde pequeno, a vi me seguir no carro em todas as viagens que fazia à noite. Ao me tornar um rapaz, a via como um mistério hermético, pois minhas perguntas eram respondidas apenas com a mudança da iluminação oriunda da vontade que a Lua tinha ou não de deixar passar sua frente pequenas nuvens. A Lua, maior das maiores rainhas que o escuro céu pode ter, esbanja tanto poder que as estrelas ao seu lado têm o simples papel de meros servos de toda sua realeza. No entanto, com o passar de minha idade, aprendi que a Lua nada tem de esnobe em seu interior, ela é apenas uma grande observadora. Observa a ti, a mim, a todos... Confia em poucos.
A idade começa a pesar, com as pequenas rugas que se deflagram em seu rosto em sua forma mais cheia e redonda. Nada que supere a sutileza de um pequeno detalhe, afinal está pra nascer o par de olhos ora azul ora verde tão lindo como o dela. Admito que meus olhos já ficaram úmidos de tanto olhá-la e pensar na invejável força de sustentação do eterno brilho que anda junto com a Lua.
Deixo à Lua um último questionamento, o questionamento de hoje. Se em tuas formas variadas, o brilho demasiadamente ostentas, qual a razão de ser dos meros servos que te acompanham?
Lua: A razão de ser é óbvia, meu caro. Chegaste aos seus 46 anos sozinho? Ainda que com pequeníssimas contribuições, muitas foram as pessoas que te ajudaram. O mesmo acontece comigo e com todos. Por trás de tanto brilho, houve orientação, o que faz de mim não só profesora, mas uma eterna aprendiz.
Contigo, Lua, nunca parei de aprender.
À Lua, minha eterna namorada.
Sempre me encantei com a Lua. Desde pequeno, a vi me seguir no carro em todas as viagens que fazia à noite. Ao me tornar um rapaz, a via como um mistério hermético, pois minhas perguntas eram respondidas apenas com a mudança da iluminação oriunda da vontade que a Lua tinha ou não de deixar passar sua frente pequenas nuvens. A Lua, maior das maiores rainhas que o escuro céu pode ter, esbanja tanto poder que as estrelas ao seu lado têm o simples papel de meros servos de toda sua realeza. No entanto, com o passar de minha idade, aprendi que a Lua nada tem de esnobe em seu interior, ela é apenas uma grande observadora. Observa a ti, a mim, a todos... Confia em poucos.
A idade começa a pesar, com as pequenas rugas que se deflagram em seu rosto em sua forma mais cheia e redonda. Nada que supere a sutileza de um pequeno detalhe, afinal está pra nascer o par de olhos ora azul ora verde tão lindo como o dela. Admito que meus olhos já ficaram úmidos de tanto olhá-la e pensar na invejável força de sustentação do eterno brilho que anda junto com a Lua.
Deixo à Lua um último questionamento, o questionamento de hoje. Se em tuas formas variadas, o brilho demasiadamente ostentas, qual a razão de ser dos meros servos que te acompanham?
Lua: A razão de ser é óbvia, meu caro. Chegaste aos seus 46 anos sozinho? Ainda que com pequeníssimas contribuições, muitas foram as pessoas que te ajudaram. O mesmo acontece comigo e com todos. Por trás de tanto brilho, houve orientação, o que faz de mim não só profesora, mas uma eterna aprendiz.
Contigo, Lua, nunca parei de aprender.
À Lua, minha eterna namorada.
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