domingo, 23 de maio de 2010

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Há um bom tempo insisto em dizer pra mim que deveria fazer mais o que gosto. Gostar é um ato que se encaixa numa gama bem ampla de coisas a se fazer, mas o gostar ao qual me refiro é o gostar real e profundo, com paixão, daqueles que conseguimos ver apenas nos olhos de quem gosta do que está fazendo.
Sem querer me comparar a ninguém, muito menos àquele mestre que outrora falava da chama & do amor infinito que ela continha, sinto-me confortável ao chegar a conclusão de que, na verdade, essa ilusão na qual inevitavelmente nos inserimos só se faz agradável, diante a realidade lógica e "absoluta" imposta, quando a paixão se faz presente. Não interessa, como Vinícius demonstrava em seus atos, se você se apaixona uma, duas, três, dez vezes pelas pessoas, livros, músicas e assuntos de sua vida; interessa que você esteja apaixonado.
Na tentativa de entender outras questões, também psicológicas, da natureza humana, estive, outro dia mesmo, no Museu de Imagens do Inconsciente, anexado ao, infelizmente, quase falido Hospital Nise da Silveira. Fui pra lá como resultado do fluxo de mais um de meus ensinamentos médicos, mas, para minha surpresa, me deparei com um mar tão rico de conhecimentos não puramente descritivos que me deixei entender tudo que podia acompanhar naquele lugar. Não divaguei; mostrei, apenas, o contexto sine qua non para a ratificação, talvez com algo acrescido, daquilo que Vinícius já tinha me ensinado. O detalhe que deixara tudo ainda melhor é que fora um aprendizado num lugar inesperado, a partir de alguém totalmente inesperado.
Conheci, nesse museu, José, paciente antigo do hospital. José sofria de uma psicose preenchida por energia e muitas manias, que o faziam lançar suas ideias ininterruptamente. José acima de tudo era um artista. Descobriu tal qualidade ao mostrar a evolução de seu quadro patológico a partir dos quadros que pintava, resultado da terapia por meio de expressões artísticas, introduzida pela Dra. Nise. Encontrou a mim e a todo o grupo que pelo museu passava por acaso, mas por lá nos acompanhou até o final da exposição e fez questão de explicar suas obras. Cada linha e cada cor tinham explicações. O artista José se remetia sempre a uma voz, supostamente a sua orientação de vida. Falava ainda que se existiam tantas explicações, tudo era por conta de que "a voz dava o enredo". Foi aí que o vital aprendizado ocorreu: em meio a todo aquele enredo de sua vida e representação de vida, que eram seus quadros, José falou que são várias as maneiras de lidar com a ilusão que nos rodeia, mas que o interessante mesmo é como encaramos o quesito da fidelidade. Não se tratava somente daquela fidelidade limitada a uma relação a dois, mas todo e qualquer tipo de fidelidade. "Não é uma questão egoísta, mas para se ter uma mente saudável, conceito relativo a meu ver - afinal, muitos ainda me chamam de doente da cabeça -, não é necessário nenhum mistério, apenas ser fiel a você mesmo."
A complementação da importância de manter-se apaixonado pelo que faz, então, é o argumento para tal: me apaixono várias vezes sim, pois sou fiel a mim mesmo. Minha pergunta, como não podia deixar de faltar, é só uma: se eu me traio, quer dizer que eu não me apaixonei de novo?
C'est la vie, c'est la vie...