Aquele não era um momento feliz. Não era também triste. O cenário era seco. Algumas folhas, também secas, se arrastavam azuladas pelo chão. Talvez, fosse outono, talvez simplesmente criação minha. A cidade, toda, estava parada, com as janelas fechadas, com as portas trancadas, com os carros abandonados... Esses sim, de portas e vidros entreabertos. Não havia dinâmica. Consequentemente, qualquer tipo de barulho era inexistente, salvo o de minhas botas ao andar no marco-zero daquela cidade. Aquele não era um momento feliz, mas também não era um momento triste.
Subitamente, ouvi o som de um sino. Percebi, ao fundo, então, uma Igreja, cujo sino estava realmente a funcionar. O som do sino era tudo que ouvia. O som do sino parecia ser a única coisa viva daquela cidade além de mim. Após o soar acústico – mas não por isso pouco estridente -, os fios dos postes mostravam, num tom fantasioso como o do conto de Alice no país das maravilhas, a única coisa que sabiam fazer. Eles conduziam a eletricidade. Rápida e subsequentemente, uma contração no céu dessa cidade, ou melhor, na abóbada desse local, aconteceu. Parecia um terremoto às avessas. Um aumento de pressão altamente caótico vindo de cima para baixo. Eis, portanto, a loucura de meu relato: no marco-zero em que estava, um enorme buraco se abriu no chão, fato que, quando somado a esse estranho fenômeno sideral, implicava numa sucção de mim e de tudo que havia ao meu redor como a água que desce pelo ralo de uma pia cheia. Foi turbulento. Nada agradável, é verdade. No entanto, não posso deixar de contar que foi interessante. Com o sentimento contínuo de um déjà vu, me encontrava numa outra cidade, sem mais nem menos.
Dessa vez, ainda mais rápido que na cidade anterior, um outro terremoto aconteceu, porém não às avessas. Esse era mais coerente. Novamente com aquele sino ao fundo, com aqueles postes balançando, com aquela eletricidade visivelmente passando pelos fios... Bastou piscar e lá estava eu, sem saber em qual cidade, num túnel de proporções extensas e percurso sinuoso. Cada vez mais esse túnel se afunilava. As folhas azuladas ainda me seguiam. O túnel que, antes, dividia-se em vários outros túneis e “tunelículos” secundários na medida em que se afunilava, agora vai de novo se formando. Suas características não são exatamente iguais, mas ele ia se formando. Chego àquela primeira cidade antes de conseguir relfletir muito sobre tudo que sofri nesse louco percurso. Ali, tudo era igual, com apenas duas exceções: o marco-zero e a disposição das coisas. Como era tudo igual se a disposição das coisas era diferente? Era sim diferente, mas com uma lógica. Parecia que tinham posto um espelho ao lado daquela cidade e criado, então, essa nova. Eu estava, portanto, na imagem da cidade. O marco-zero, um pouco menor que o outro, se abriu. O terremoto já ocorrera sem eu nem conseguir descrevê-lo. A segunda cidade era também uma imagem. Não estou conseguindo discernir bem as coisas, apenas que as folhas secas agora eram amarelo-avermelhadas.
Não estava conseguindo discernir bem as coisas, não consigo discernir bem as coisas... Que coisas? Embora não saiba exatamente o que sinto agora por toda essa confusão que não consigo decifrar, reajo psicologicamente de forma a achar que já estive aqui, nessa cidade de cenário seco e folhas amarelo-avermelhadas pelo chão. Parece um déjà vu. Se apagaram minha memória, eu não sei. Não faço questão também de saber, afinal esse não é um momento feliz, mas também não é triste. Porém, caso alguém queira tentar entender esse sentimento, tenho apenas uma informação, um nome... Mr. Lung.