segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

À Lua, um olhar não basta

O dia cai, o céu está limpo, uma música ao fundo. A engenharia da natureza mais uma vez faz de nós uma platéia que, incessantemente, bate palma com seu espetáculo: o aparecimento da Lua. Cintilante aos olhos e à mente de qualquer um, a Lua se mostra como um corpo celeste e encantador, causador de profunda admiração àqueles que, seja por um momento apenas, conferem a ela certa dose de atenção. Por seu langor, por sua maneira amistosa de lidar com as pessoas, por sua forma sinestésica de aparecer docemente, apelidei-a com uma série nomes, cada qual sendo usado adequadamente no momento oportuno. Minha amiga, minha namorada e menina dos olhos do mundo, aparece de diversas formas, tendo um quê camaleônico em seu interior. Quando triste com as atitudes humanas sobre o cenário em que ela aparece, a Lua se vira e, minguada, não dá papo a ninguém. Após uma bela comilança, ela, empanturrada, resolve, cheia de preguiça, não mais falar nada, e, sim, ouvir, ouvir e ouvir. - Dentre as juras de amor por ela ouvidas, sobram até algumas designadas a própria: "Alva como a neve,/ é a sua pele./ Iluminada de várias formas,/ beleza que não deforma./ Assim é você,/ singela, mas com poder".:Castro Alves. Depois de uma boa soneca, ela vem e dá o ar da graça em sua forma mais jovial de ser, crescente, avante, para frente. Finalizando o show de efeitos ópticos, a menina dos olhos do mundo mostra-se nova, provando que todos podem mudar aquilo em que não há satisfação.
Sempre me encantei com a Lua. Desde pequeno, a vi me seguir no carro em todas as viagens que fazia à noite. Ao me tornar um rapaz, a via como um mistério hermético, pois minhas perguntas eram respondidas apenas com a mudança da iluminação oriunda da vontade que a Lua tinha ou não de deixar passar sua frente pequenas nuvens. A Lua, maior das maiores rainhas que o escuro céu pode ter, esbanja tanto poder que as estrelas ao seu lado têm o simples papel de meros servos de toda sua realeza. No entanto, com o passar de minha idade, aprendi que a Lua nada tem de esnobe em seu interior, ela é apenas uma grande observadora. Observa a ti, a mim, a todos... Confia em poucos.
A idade começa a pesar, com as pequenas rugas que se deflagram em seu rosto em sua forma mais cheia e redonda. Nada que supere a sutileza de um pequeno detalhe, afinal está pra nascer o par de olhos ora azul ora verde tão lindo como o dela. Admito que meus olhos já ficaram úmidos de tanto olhá-la e pensar na invejável força de sustentação do eterno brilho que anda junto com a Lua.
Deixo à Lua um último questionamento, o questionamento de hoje. Se em tuas formas variadas, o brilho demasiadamente ostentas, qual a razão de ser dos meros servos que te acompanham?
Lua: A razão de ser é óbvia, meu caro. Chegaste aos seus 46 anos sozinho? Ainda que com pequeníssimas contribuições, muitas foram as pessoas que te ajudaram. O mesmo acontece comigo e com todos. Por trás de tanto brilho, houve orientação, o que faz de mim não só profesora, mas uma eterna aprendiz.
Contigo, Lua, nunca parei de aprender.

À Lua, minha eterna namorada.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

C'est la vie, mon amie

A vida... Complexa ela. À vida, damos a vida, tentando fazê-la a mais bela de nossas passagens. Assim que nascemos, começamos, instantaneamente, a morrer. O sentido, então, para muitos é o retardamento do final, do fechar dos olhos sem a futura luz de uma nova manhã, da morte. Vida e morte sempre andaram juntas, fato do qual grande parte das pessoas discorda ou, pelo menos, faz força para não acreditar nele. Particularmente, sendo um mero observador das atitudes das pessoas para com o mundo, vejo que a felicidade, fator intrínseco para a tão desejada vida de qualidade, vem sendo esquecida no excesso de trabalho, na preocupação com os detalhes supérfluos da vida alheia e, principalmente, na distorção da própria. Não se trata do quanto os outros pensam que um indivíduo é feliz, mas, sim, de que maneira o caminho pelo qual traçamos a vida é desenhado.
Morte e Vida. A ordem não foi ao acaso invertida. Para alguns, é assim que a banda toca. Nascem, crescem, experimentam a obscuridade, e esquecem o livre arbítrio. Após um trauma, seja lá de que natureza esse faz parte, abrem-se os olhos, enxerga-se a luz de uma nova manhã e a liberdade é, pela primeira vez, degustada. O severo problema é o tempo disperdiçado para tal acontecimento... Às vezes, 40, 50 anos não são suficientes. No entanto, antes tarde do que nunca.. Um velho ditado já dizia, "dê tempo ao tempo e verás que o tempo é mais curto que o próprio tempo". Não interessa se restam apenas 5,4 ou 3 anos de vida para alguém. Interessa que se esse período for vivido com felicidade, a intensidade com a qual a vida se apresenta diz-se por completa, mostrando o quão bom é viver.

A decorrência de um bon vivant está intimamente ligada ao fundamental instrumento que faz sê-lo digno da vida: o corpo. O contínuo e insubstituível estresse que segue o homem na tentativa de construção de um bom futuro, vem consumindo essa magnífica máquina, essencial para a manutenção da vida - mens sana in corpore sano -. O futuro, com certeza, estará lá. E o presente? Para você, está presente? Nunca esqueci o futuro, mas o presente há de ser vivido. É vivendo o presente que o futuro, quando for presente, traz bons frutos. Assim como o nome diz, o presente é um presente. Tratando-o, então, como tal, a dúvida, a surpresa e a felicidade de agora fazem do presente um dom do qual todos compartilhamos.
Bem como as jóias, a vida é lapidada. Esse trabalho hercúlio e detalhista olha pra frente e objetiva o futuro. Porém, é feito no presente, o que faz desse um dos maiores maestros que essa complicada orquestra, que é a vida, pode ter. Viver o presente é deixar o maestro reger sua orquestra e lapidar minuciosamente a vida. Essa jóia, então lapidada, permite, com auxílio da harmonia e afinidade de sons da orquestra, que a luz das manhãs entre e, dispersando-se num espectro preenchido por cores, saia como um arco-íris. Ausentar o maestro, é aumentar a probabilidade do fenômeno já pela física explicado, de entrada e não saída de luz numa jóia, devido aos ângulos limites aos quais a falta de liberdade da vida é imposta.
O pensamento esboça a vida, e a vida é um emaranhado de idéias e emoções do qual todos devemos fazer parte. Uma só ilusão.