quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Amarelo

Tênis amarelo, árvore azul
Todos tiram a roupa
E dançam quase nus
Quase nus

Mandala da floresta,
Cachoeira que seduz
Banho que é verde
Água que é luz

É tudo, é quase nada
Um beijo
Uma mente
Um rastro de estrada

É tudo, é quase nada
Um beijo
Uma mente
Um rastro de estrada

Essa minha saudade de nuvem ensandecida
É de outro tempo
É de outra vida

É braço, são abraços
Te levo para o canto
E te mostro o meu espaço

Meu abraço, o seu abraço
Somo, multiplico
O que dá um grande amasso

Meu abraço, o seu abraço
Somo, multiplico
O que dá um grande amasso

Tênis amarelo, árvore azul
Todos tiram a roupa
E dançam quase nus
Quase nus

Mandala da floresta,
Cachoeira que seduz
Banho que é verde
Água que é luz

É tudo, é quase nada
Um beijo
Uma mente
Um rastro de estrada

É tudo, é quase nada
Um beijo
Uma mente
Um rastro de estrada

Essa minha saudade de nuvem ensandecida
É de outro tempo
É de outra vida

É braço, são abraços
Te levo para o canto
E te mostro o meu espaço

Meu abraço, o seu abraço
Somo, multiplico
O que dá um grande amasso

É tudo, é quase nada
Um beijo
Uma mente
Um rastro de estrada

É tudo, cachoeira que seduz
Banho verde, água luz
Daram, daram/ Daram, daram...

É nada, o carro, o vento e a estrada
Casamento Queijo & Goiabada
Daram, daram/ Daram, daram... Ê, ê!

Adorar

Um bom vinho
À noite e o luar
Desejei assim, não sei se vai rolar

Existe história com início, meio e fim
Não consiguirei fugir
Vai ter que ser assim

Antes dava, agora acabou
"Só quero minha vida"
Assim você pensou

A vingança nunca pede um fim
Quem sabe volto a amar
Com você longe de mim

Seus atos inconsequentes
Me fazem repensar
O que está em jogo logo por trás
Meu vinho e o luar
Meus atos são a favor da maré
Desculpe se você chorar
Essa vida só se traduz
Num teatro espetacular

O barco anda
O rio segue o curso
Negar não dá
Continuar seria um abuso

Ao invés disso, olho para o céu
Universo paralelo
Verd'azul do tipo rel

Seus atos inconsequentes
Me fazem repensar
O que está em jogo logo por trás
Meu vinho e o luar
Meus atos são a favor da maré
Desculpe se você chorar
Essa vida só se traduz
Num teatro espetacular

domingo, 13 de setembro de 2009

Caso Poligâmico

Antes de tudo, eu quero dizer que estou puto. Puto por uma série de coisas que enchem meu saco durante o dia-a-dia das quais se alguém ousa falar a respeito, “Meu Deus! Que pecado! Esse rapaz não é de Jesus.”. Pois é. Meu nome é Henry Pierrot Want’ass ( já viram que qualquer maluquice é mero fruto de minhas origens e, portanto, não me culpem por essa mistura Franco-Britânica!), tenho 34 anos e possuo o que, infelizmente, a justiça considera uma Relação Estável. Mas que merda, ein?!?! Sabes o que quer dizer uma R.E? Queria eu que fosse um simples Retículo Endoplasmático que fizesse jus aos meus ensinamentos médicos, mas não. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, diziam Vinícius, Toquinho e Tom. Relação Estável é aquela em que uma mulher já pode levar metade de tudo, eu disse de TUDO, o que é seu por conta do tempo em que vocês estão juntos – no mínimo 4 anos – se houver um desentendimento e conseqüente separação(caralho! O que é esse intervalo de tempo?!?!? Sim. Bastante coisa, mas determinantes a você perder tanto?). Eu estou puto. Acabo de completar 4 anos com minha merenda.

O assunto do qual eu falava anteriormente, mal visto por algumas pessoas, é simples: a Poligamia. A escrevo com letra maiúscula não por acaso, mas pela grandiosidade que ela compõe, transcreve, transcende... É uma física simples, confundida com uma metafísica complexa. A natureza humana instintivamente nos mostra, nos insinua, nos leva à Poligamia. Ora olhamos um desejo novo, um jeans bacana ou um corte frontal superior de uma camisa legal, ora sentimos o entrelaçar de perfumes, de olhares, de jeitos, em que obviamente temos parcialmente inserção no processo. A monotonia, por outro lado,...(Epa! Perdão.) A monogamia, de forma contrária, nos impede de exercer nossas qualidades inatas, de irmos atrás do que queremos com ambição, assim como fazemos com nossas questões profissionais, mas, dessa vez, com o outro, com nossos cônjuges, sejam passageiros ou... Sempre passageiros.

Minha idéia consiste no seguinte: caso poligâmicos fôssemos, o tempo real em que estivéssemos com cada um(a) de nossos(as) parceiros(as) seria o mesmo para completar-se uma Relação Estável – leia-se: 4 anos - , no entanto, como seriam 2 ou mais parceiros(as) e contando com que ninguém fizesse a enorme besteira de maldade incalculável de unir-se com esses(as) 2 ou mais parceiros(as) ao mesmo tempo, o tempo estimado para que houvesse uma relação estável com ambos ou múltiplos lados seria proporcional ao número de pessoas com quem você se relaciona. Isto é, caso fossem 2, 8 anos, caso fossem 3, 12 anos, e assim por diante... É simples, fácil, prático e, mais do que tudo, lindo (leitor, pare com isso de começar a deixar sua cabeça falar que eu não sou um menino de Jesus... Seja sincero, não seja hipócrita!).

Outro dia, cheguei no supermercado para fazer a compra da semana. Lá, deparei-me com uma moça sobre a qual eu conceituaria como modesta, se é que me entende. Era carrinho pra lá, carrinho pra cá, sabonete, carne, refrigerante... Quando eu estava na seção das bugigangas elétricas, eu a vi segurando em um consolo. Para os menos malandros, tratava-se de um vibrador, daqueles! Não me contive. Abaixei os óculos, olhei para os lados, certifiquei-me de que não havia problema e fui até a senhora conversar. Primeira coisa: eu não fui até a senhora como um possível futuro amante ou algo do tipo, afinal tenho 4 anos com minha anexa, minha relação é estável e, se eu der mole, perco a porra toda! Segunda: ratificando minha experiência, acertei que era uma senhora e, não, uma senhorita pelo fato de ter aproximadamente a minha idade e estar pegando num vibrador. Ou seja, seu marido com certeza já estava na fase da barriga grande, que não comparece e, uma vez ou outra, quando dá umazinha já se encontra no estado do come&dorme. Cheguei, com jeito, olhei uma lanterna, puxei um papo, pedi que não ficasse envergonhada pelo que estava fazendo e lancei minha teoria. Não deu outra! Não houve nem desenrolo, apenas uma explicação teórica e o ar estava impregnado por uma pseudo-sedução por ela não muito bem compreendida. Ela não parava de concordar comigo, de sorrir com minhas palavras, de ajeitar seus cabelos lisos escuros daquele jeito, de falar que estava com calor e essas coisas. Até que o clímax de nossa conversa passageira chegou: ela avançara completamente o sinal, esquecera seu marido, e começara a alisar meu rosto, dando um toque especial às minhas orelhas. Não quis ser rude, muito menos grosseiro, mas a trouxe novamente para o mundo real, dei-lhe palavras consideradas de sabedoria pela sociedade medíocre e falei “em alguns minutos, você volta a ser monogâmica, agora pára de alisar minha orelha”. Eu, ein?! Você acha mesmo que quero perder metade de tudo o que tenho? Jamais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Pois é...

“Pois é...”. Será que existe expressão alguma que signifique tanto? Acho que não. “Pois é” para uma concordância, “pois é” para um fato triste, “pois é” para a mudança na ordem de coisas que se sucedem, para uma vicissitude. A quebra na rotina diz mais do que deixar de fazer algo antes feito ou passar a fazer novidades, ela mostra a imprevisibilidade e a surpresa pelas quais as atitudes viris do “eu” podem passar. Tratam-se da aceitação e execução das vontades que o interior de cada um, constantemente, esconde. Etiqueta, postura, modos, exemplo de boa educação – a meu ver, altamente relativo - : não sou contra a criação de tais fatores e/ou invenções que regem a convivência, no entanto desvirtuo o meu pensamento e canalizo meus esforços para a flexibilidade, para a coerência em ser incoerente e para a moderada desordem, fator sem o qual fatos e fenômenos brilhantes e precisamente bem organizados não aconteceriam. – Tem noção, por exemplo, de qual é a ordem de grandeza relacionada às sinapses nervosas que ocorrem em, praticamente, meia dúzia de milissegundos para que haja um simples movimento muscular? Vai dizer-me que a troca de substâncias e componentes entre os milhões de neurônios nesse ‘significativo’ intervalo de tempo é algo considerado organizado? E o resultado? A movimentação não é algo espetacular?!–
Pois é... Aceita ou não, a explosão de sentimentos por uma vida, temporalmente falando, guardada há de acontecer, há de querer acontecer... AHHHHHHHHHH! Pronto, aconteceu. Gritei. Coisa que, há mais de meia hora, queria fazer, mas não podia pelo simples fato de a secretária do lar de minha casa estar presente e, portanto, possivelmente passar a ter medo de minha pessoa. Não me importo se ela me acha maluco, mas é que gosto da amizade dela.
Em se tratando dessas coisas controladas pelo lóbulo pré-frontal do cérebro – leia-se: emoções -, existe uma estória de um feito pirata que se adequa bem a esse descontrole (ou seria ‘melhor controle’?) em que a explosão de sentimentos se baseia. Nunca é demais alongarmos os pensamentos a mais um ponto, reunindo, portanto, intelectualmente, os diferentes pontos de vista que a vida pode mostrar e aprendendo como é importante o respeito pelo gosto daquilo que é diferente. Dessa forma...
Era um dia de sol, logo depois de uma semana conturbada oriunda da então aparente batalha incessante entre duas linhagens piratas. O navio dos piratas vencedores encontrava-se em festa, farto de comidas, metais preciosos, e com uma parada já marcada às 12:00, no porto de Saint Louis, Inglaterra. A intenção de atracar-se no porto inglês era objetiva: encher a nau de prostitutas para a satisfação geral da tripulação. Após um dia de constante orgia entre a proa e a popa do navio, passando por seu interior e pelos lugares mais inóspitos, o comandante, largando a postura que a ele era conveniente apenas por seu cargo, levantou, apenas de ciroulas, e convidou que não só a tripulação pirata, bem como as madamas que vendiam seus corpos ao sabor da maré, fizessem algo por ele sempre sonhado. Não querendo machucar os animais presentes na embarcação por conta da exorbitante quantidade alimentícia presente, "O capitão olhou para a tripulação do navio e ordenou em alto brado, "Soltem as avestruzes pelo convés! Espalhem a mostarda por todos os canhões já!". Foi então que os brutos rapazes, as moças e o comandante começaram, como se fossem crianças, uma brincadeira que lhes rendera gargalhadas como há anos não era possível. Uns sujavam aos outros. As mulheres não mais se sentiam na obrigação de terminar um trabalho a elas designado, mas sim de aproveitar um momento tão agradável, porém, moralmente, vilipendiado.
“Pois é...” aos preceitos morais. “Pois é” à felicidade sem fim. Será que existe expressão alguma que signifique tanto?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Letras bobas

Borboletas. Antes lagartas e , hoje, borboletas. Lindas, suaves e elegantes...

***

- Ué... Então, aquelas lagartas que, antes, você cultivava se tornaram essas borboletas de colorações amarela e azul?
- Exatamente.
- Elas mordem? Passam algum tipo de veneno? Vão nos comer?
- Não. Claro que não... Elas apenas vivem a vida delas. Dançam, descansam e enfeitam nosso ambiente.
- Mas que graça tem isso? Elas não fazem nada.

***
Pois é. Por que será que não se enxerga a plena paz como fonte de entendimentos? Nem tudo é guerra. Sempre existe espaço para a simplicidade da alegria, para poesia. Faço de minhas palavras um pedido de pura sinceridade em demasia.

sábado, 20 de junho de 2009

Saudade que tenho, às tardes

Quantas vezes falei "vocês", quando, na verdade, queria "você" - tire as aspas de seus ombros se quiser. Quantas vezes pude ser feliz e adiei. O simples fato de, erroneamente, achar um momento futuro mais próprio me fez perder o que sempre quis: dizer "você".
Quem me entendesse tão bem, nunca encontrei. A melhor tarde de minha vida, foi com você que passei, ou, pelo menos, seria. Desejo-te tudo, desejo-te o bem, contudo parece que não mais faço parte desse seu lado também, talvez por não me impor na hora certa, talvez porque não convém.
Soube mais de ti. Hoje, sei menos. Aqueles dias passaram, mas minh'alma não apaga as lembranças que temos. Proso e a alguns poetas tento imitar, seria possível numa rima simples e pobre te amar?
Acredite, o banco no qual sentávamos viu toda a historinha passar. Ele disse que não foi descuido, mas que foi intenção de amar. Ao menos, de um lado assim a história se sucedeu, mas o que passou, passou, e, portanto, deu no que deu. Não sou um eu-lírico atrás de uma amada ideal que a mim não conhece, sou a arte da parte de sua vida que, sempre que lembrada, te enobrece.
Com "você", passei de circo a um mero palhaço, mas observo e tenho calma, o que, obviamente, não faz de meu coração aço.
Sentindo saudade de ti, peço que não suma. Seus olhos piscando me dão um sentimento único, a mesma imprevisibilidade de seu interior, o planar de uma pluma.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Errar com um humano

Um fênomeno: a concepção. Incríveis e árduas são a vontade do corpo manter sua existência na Terra e as maneiras com as quais tal manutenção ocorre. Singamia, Cariogamia, formação do embrião. Sucessivas clivagens e o rascunho do que mais tarde virá a ser o resultado da incessante vontade do organismo perpetuar sua espécie está pronto. A intenção não é romancear o simples crescer de uma barriga, o carregar de um pequenino ser - dependendo do ponto de vista, de um parasita -, mas sim de refletir até que ponto se pode manipular a vida, ou melhor, a morte... Tento não confluir meus pensamentos para fatores, diria, subjetivos, como "o que é certo e o que é errado", no entanto me pergunto: seria justo controlar, seja na própria ou na vida de outros, quando e como fechar-se-ão os olhos sem o novo despertar para mais uma manhã?

...

Era só um menino. Crescera com a mãe, fora educado pela mãe, nunca lhe faltou nada. "Mamãe, estou com fome" ; "Mamãe, estou com sede" ; "Mamãe, é natal. Quero uma bicicleta nova." . Todos os pedidos, implícitos ou explícitos, eram atendidos. Sem titubear, "mamãe" estava sempre ali. O menino cresceu. Se deparou com barreiras, dificuldades, responsabilidades. Superou-as, venceu-as, cumpriu-as. Tinha tudo para ser mimado, mas conseguiu enxergar o que, muitas vezes, os olhos não veem : Não precisamos errar para aprender.
O menino, junto de sua mãe, em um dia festivo como esses de feriados, comemorações célebres etc, já em sua mocidade, passou a tarde conversando. Com ela, almoçou, riu, ficou em silêncio, falou sobre problemas, assuntos sérios... Enfim, nada passava de um encontro informal entre filho e mãe. Enquanto falavam-se de problemas alheios, não em tom de fofoca, mas com ar de preocupação por parte de Maíra - a mãe -, afinal de contas tratava-se de alguém com enorme zelo e preocupação com as pessoas a seu redor, foi citado o caso de uma amiga que vinha sofrendo ameaças de seu marido e que até a um aborto ela foi submetida quando tinha 17 anos, por pressão de seu conjuge.

- "Que absurdo. Dois absurdos, né, mamãe?! Engravidar aos 16 anos e concordar com um aborto."

Dois segundos se passaram e os olhos de Maíra pareciam trazer das profundezas de seus interiores uma verdade há muito tempo oculta. Rápido, porém intenso e altamente epifânico foi o sentimento de Maíra, analisado por Liseri e repensado por várias vezes após o episódio.

- "Acho que você já tem idade para saber de uma coisa, Liseri... Sua mãe já fez um aborto."
- "Você, mamãe?!?!"
- "Pois é, meu filho... quando somos novas e inseguras, acabamos aceitando determinadas imposições por fraqueza ou falta de experiência."

O papo, naquele momento, foi cessado. Liseri ficou espantado. Afinal, acabara de saber que o irmão por ele sempre sonhado e, depois de uma certa idade, impossível, existiu. Existiu, mas nem ele nem ninguém, além do médico que o retirou da barriga de sua mãe como se fora um verme, um parasita, pôde conhecer seu irmão. Nada foi comentado. Nada foi perguntado. Quem foi o pai, há quanto tempo isso tinha acontecido... Nada. Apenas a informação necessária, naquele momento, foi dada. Sua mãe fizera um aborto e, consequentemente, eliminara a vida de seu irmão.

Liseri cresceu e seguiu seu caminho como qualquer pessoa. Conseguiu uma vida digna e honrada a partir de seu trabalho. Mesmo assim, Maíra nunca deixou de se preocupar com seu filho. Sempre ligava, tentava cuidar, mesmo quando sem necessidade, em suma, era mãe. Liseri se conformava com a fato de mães, em geral, constituirem um grupo bem à parte no que diz respeito aos cuidados com seus filhos, mas depois da confissão, ele se pegava pensando na possibilidade da superproteção, do mimo de sua infância e outras coisas mais ligadas à Maíra estarem relacionadas ao possível arrependimento pelo qual ela passava desde a má interpretação de sua primeira concepção - leia-se: parasitismo - .

...

Foi justo? A resposta não pode se sustentar na simples vontade de Liseri ter um irmão quando mais novo, e sim na profundidade em que as consequencias de seu assassinato se consistem. Isso. Mataram-no, em bando, sem o direito de defesa, friamente e bastante calculado, principalmente por parte do negociante de medicina, que esperava receber sua recompensa após tal virtuosa feitura.. Por isso, assassinato.

Nota: Errando, sempre se aprende.

Perdoe a parcialidade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Em meu relógio, apenas os segundos.

Era um momento daqueles... Ela chega, eu paro. Fito-a, do outro lado da calçada, de forma insaciável, incomparável, incansável... Ela, abundada em luxo e elegância, tira os óculos da cabeça, arruma o cabelo, põe os óculos e dá uma olhada, já apressada, no relógio de pulso em sua mão esquerda. Seus movimentos me atraem, sua postura me impressiona e sua voz... Sua voz é linda. Se eu já a ouvi? Não, ainda não. Mas meus pensamentos me permitem imaginar a doçura daquilo que nela ainda não vejo. O sinal abriu. Nós pudemos, então, atravessar. A cada passo, mais fortes, mais acelerados e mais imponentes eram meus batimentos cardíacos. A cada passo, mais linda ela ficava com seus cabelos soltos levemente ondulados. A cada passo...
- Perdão! A senhora poderia me arranjar uma moeda?
Pois é. Saindo um pouco de meus pensamentos, de minha ilusão, existia uma grande barreira, tão forte quanto chumbo, que me distanciava da moça, mesmo em uma situação paradoxal como o esbarrão, cuja distância foi nula, quase íntima. Ela era rica, e eu, pobre. Com minha lata na mão, fiquei ali, no meio da faixa de pedestres, enquanto ela ia embora. Foi quando minha amada chega na calçada em que eu estava, pára, olha pra trás, olha pra mim e me chama. Saí correndo, não mais pensando na moeda ou em qualquer outro tipo de ajuda financeira. A mim, interessava apenas uma coisa: a retribuição do meu amor. Sim. Amor. Durante aquele momento, a amei. Amei aquela moça. Um sentimento que vinha de dentro, nascia em minhas entranhas.
- Está aqui a sua moeda, menino. Qual é o seu nome?
- Pedro, senhora. Meu nome é Pedro.
- E cadê a palavrinha mágica?
- Obrigado, senhora.
- Não precisa me chamar de senhora. Agora, vá. Nunca deixe de estudar, Pedro.
Foi lindo. Eu senti. Senti que amei e que fui amado. Ela me amou tão profundamente quanto eu a amei. Ela era linda. Sei também que, naquele momento, eu também fui. Vivo na rua porque quero. Vivo na rua porque adoro ter vários amores e ser amado por várias. Venho da vadiagem, dos becos de escuridão. Será loucura? Obsessão? Não sei. Só sei que mais valem os segundos diários de meus sinais do que uma vida pacata e sem amores.
Ah... a voz dela era linda.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Nota.

Tão mais fácil é criticar aquilo cujo conteúdo foge de nosso alcance de compreensão, de nosso foco, de nosso gosto... A palavra 'crítica' vem de crisis, do grego. Sua raíz etimológica remete ao que constrói ou desconstrói uma idéia, um conhecimento. Exatamente por conta da jornada pela qual esse vocábulo passou, criticar algo desconhecido ou ignorado faz de um indivíduo não só leigo, bem como néscio. Reunir condições e conhecimento sobre um assunto, mesmo que dele descorde, para discutir e conflitar uma tese com uma antítese em busca da síntese, é algo admirável, afinal trata-se de um refino do pensamento. Criticar positivamente é ótimo. Criticar desconstruindo não é ruim, pelo contrário, é tão importante quanto o elogio, pois mostra ao agente de uma ação onde deve haver a melhora. O grande problema, inerente ao homem, é o pré-conceito formado ao analisarem-se apenas a aparência, a superficialidade. Quando cada um mergulha para seu próprio interior, a crítica é pertinente, mas no momento em que crisis desvirtua-se para uma crise... Esqueça! Critique-se.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Quimera etimológica

As ondas que calam,
O ardor que os olhos me fecha,
A janela de ontem que, hoje, não mais está aberta...

Tremo, penso, me acho um covarde.
Com os outros, preocupo-me e, comigo, um dia hei de tentar.
São as responsabilidades com as quais me cerco,
Mas serei eu aquele a quem sufocar?

Alguns são festivos, outros, altivos e ele é,meramente, admirado.
A nobreza de outrora é incompreendida,
Confundida com busca pela glória.
Ele sou eu e eu sou ele. – Consegues plenamente me decifrar? -

Que pena! Tivesse admirar a mesma raiz de amar
E o sol novamente dançaria na casa.
Quem sabe um dia não penso em me cuidar?!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Deixando a chuva cair

Tudo corria na mesma naturalidade de uma manhã quente e agradável. A natureza respeitava seus ciclos e necessidades. O Sol, com seu brilho invejável, animava o grupo de colegas verdes a iniciar seu processo de auto sustentação que, por conseguinte, era responsável pelo equilibrio de toda uma cadeia alimentar. Insetos, como eu, voavam e pulavam. Como toda diversão deve ser preenchida por uma pitada de aventura, os predadores enfeitavam toda a brincadeira com os sustos que nos pregavam. Era a dramatização diária de nossas vidas, um notório teatro.
Estava em início de vida, na batalha, esforçando-me para a presa de cada dia. Um tanto quanto imatura, afinal era uma joaninha que, mesmo ametábola, não passara por certas transformações que só o tempo pode oferecer. Eis que um fenômeno de suma importância para tentativa de busca do almejado equilíbrio acontece, o qual nunca tinha sido presenciado por mim. Insegura mas, ao mesmo tempo, curiosa, a infante joaninha, parada no solo entre diversas amigas gramíneas, observa o movimento de um corpo admirável a favor da gravidade: uma gota.
"- Chuva!" - gritou Lelé, a roseira do fundo do jardim. Foi então que tive contato pela primeira vez com a chuva, um fato conhecido por mim apenas teoricamente, enquanto 'precipitação convectiva ou de origem orográfica' - detalhes da aula de geografia. Um escândalo! Os que podiam, correram e se abrigaram. Os fixos deram início a uma incessante absorção d'água, que em poucos instantes já se encontrava saturada no solo. O pigmento verde que os faziam dignos da vida ficava cada vez mais vibrante. Era a natureza acontecendo.
Ainda parada, não tive muita reação. Sabia que chovia, no entanto não conhecia a chuva. Como se um enorme reservatório tivesse arrebentado no céu, enormes quantidades de água desciam. Ao longo de seu trajetório, essas grandes quantidades passaram a gotas e, finalmente, perto do solo, já eram gotículas que, ao se impactarem no chão, criavam um tipo de som agradável. Ora um Lá, ora um Si, às vezes um Dó... Aquele fenômeno, assustador porém intrigante, ia se tornando um concerto, uma orquestra, uma sinfonia. Agradava a mim e a meus colegas verdes.
A joaninha cresceu, tornou-se adulta e logo era responsável por muitas tarefas. As chuvas não mais lhe chamavam a atenção, seus antigos companheiros de habitat não eram mais presentes em sua vida psicologicamente, enfim, assim como com a maioria, o sistema lhe engoliu. Ela só pensava em trabalho. O individualismo passou a fazer parte de sua conduta. A cooperação de todos foi esquecida. As diferenças físicas e comportamentais dela e seus antigos colegas não mais eram importantes, muitas vezes confundiam-se com conceitos segregacionistas. Os olhos de criança, puros e curiosos, se corromperam. Tratavam-se , então, de conceitos pré-formados e subjugação. Uma grande mudança no ponto de vista.
Com o decorrer da vida e os obstáculos que ela lhe impos, a infante joaninha que passara a um ser carrancudo e mal humorado, percebeu que a experiência traz o aprendizado, e foi aprendendo a essência do companherismo que o pequeno inseto refez os laços de afeto e amizade com os fatores bióticos e abióticos a sua volta. O ar lhe parecia mais leve e gostoso. A chuva, antes esquecida, passava a substituir qualquer maneira de fazer o tempo passar, por sua beleza e musicalidade. A eterna busca por um futuro perfeito pode fazê-lo impróprio e anular o presente. 'Carpe Diem e Carpe Noctum', esse é o lema que a joaninha tenta ensinar até hoje.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Aquarela da vida

Mais um dia acaba de nascer. Acabo e começo, a todo momento, um novo ciclo em minha vida. São as metamorfoses pelas quais, dia após dia, eu passo. No entanto, tais transformações não se consistem em cima de uma aparência, elas se baseiam nas pequenas, porém várias, perguntas que o interior faz a si próprio. Ora meus pensamentos e vontades pedem inquietudes, companhia, conversa e animação, ora as conversas são de mim comigo mesmo. "Uma solidão própria, escolhida. Como a que a gente precisa de tempos em tempos", diria um grande amigo.
Pois é... O ser humano não é absoluto. Às vezes, falamos coisas com as quais não concordamos, às vezes, seguimos caminhos que não desejamos e, às vezes, um beijo não é passível de um belo romance. Outrora, nos impomos, fazemos das palavras um espelho de nossos anseios, desejamos algo e o fazemos. Relatividade, todos nós a temos conosco. Somos como um aquarela, diria. Ela, somente existente quando há a reunião de cores e uma peça para a sustentação de tais. Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros. Pensamos de uma forma, pois outros pensam de outra. Concordamos com uma idéia, pois outros concordam com outra. Gostamos de alguma coisa, pois existe gosto para tudo. Mas que coisa complicada essa de ser humano, não? Antes a complicação do que a uniformidade! Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela.
Um outro fator, intrínseco, é claro, à aquarela de nossas vidas, é a obra por ela pintada. Composta por diversos quadros, a vida é a representação - ah! quem dera fosse sem comedimentos - dos pontos de vista e das fases em que nos inserimos. Bem como Picasso, que passou, durante sua carreira, por diversas fases, com destaque para o Cubismo e A Fase Azul, nós também fragmentamos os planos e nos entristecemos. A questão é que, mesmo com atitudes consideradas errôneas, sem perspectivas, a felicidade está no fato de sabermos a todo instante que há um desafio: o de largar o que não presta e se apegar às oportunidades. E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura.
O "eu" de todos nós é composto por vários, assim como uma aquarela. Questiono, então, alguns desses que moram dentro da gente. Seria melhor se abafássemos alguns deles? Se deixássemos aqueles cujos desejos são os mais proibidos sobressair? O que seria melhor, realmente não sei. Só sei que, quando pequeno, gostaria de ter desenhado, na escola, o meu céu e a minha árvore respectivamente com colorações laranja e azul, sem ter uma psicóloga falando no ouvido de meus pais quais são os padrões para a normalidade.