sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Deixando a chuva cair

Tudo corria na mesma naturalidade de uma manhã quente e agradável. A natureza respeitava seus ciclos e necessidades. O Sol, com seu brilho invejável, animava o grupo de colegas verdes a iniciar seu processo de auto sustentação que, por conseguinte, era responsável pelo equilibrio de toda uma cadeia alimentar. Insetos, como eu, voavam e pulavam. Como toda diversão deve ser preenchida por uma pitada de aventura, os predadores enfeitavam toda a brincadeira com os sustos que nos pregavam. Era a dramatização diária de nossas vidas, um notório teatro.
Estava em início de vida, na batalha, esforçando-me para a presa de cada dia. Um tanto quanto imatura, afinal era uma joaninha que, mesmo ametábola, não passara por certas transformações que só o tempo pode oferecer. Eis que um fenômeno de suma importância para tentativa de busca do almejado equilíbrio acontece, o qual nunca tinha sido presenciado por mim. Insegura mas, ao mesmo tempo, curiosa, a infante joaninha, parada no solo entre diversas amigas gramíneas, observa o movimento de um corpo admirável a favor da gravidade: uma gota.
"- Chuva!" - gritou Lelé, a roseira do fundo do jardim. Foi então que tive contato pela primeira vez com a chuva, um fato conhecido por mim apenas teoricamente, enquanto 'precipitação convectiva ou de origem orográfica' - detalhes da aula de geografia. Um escândalo! Os que podiam, correram e se abrigaram. Os fixos deram início a uma incessante absorção d'água, que em poucos instantes já se encontrava saturada no solo. O pigmento verde que os faziam dignos da vida ficava cada vez mais vibrante. Era a natureza acontecendo.
Ainda parada, não tive muita reação. Sabia que chovia, no entanto não conhecia a chuva. Como se um enorme reservatório tivesse arrebentado no céu, enormes quantidades de água desciam. Ao longo de seu trajetório, essas grandes quantidades passaram a gotas e, finalmente, perto do solo, já eram gotículas que, ao se impactarem no chão, criavam um tipo de som agradável. Ora um Lá, ora um Si, às vezes um Dó... Aquele fenômeno, assustador porém intrigante, ia se tornando um concerto, uma orquestra, uma sinfonia. Agradava a mim e a meus colegas verdes.
A joaninha cresceu, tornou-se adulta e logo era responsável por muitas tarefas. As chuvas não mais lhe chamavam a atenção, seus antigos companheiros de habitat não eram mais presentes em sua vida psicologicamente, enfim, assim como com a maioria, o sistema lhe engoliu. Ela só pensava em trabalho. O individualismo passou a fazer parte de sua conduta. A cooperação de todos foi esquecida. As diferenças físicas e comportamentais dela e seus antigos colegas não mais eram importantes, muitas vezes confundiam-se com conceitos segregacionistas. Os olhos de criança, puros e curiosos, se corromperam. Tratavam-se , então, de conceitos pré-formados e subjugação. Uma grande mudança no ponto de vista.
Com o decorrer da vida e os obstáculos que ela lhe impos, a infante joaninha que passara a um ser carrancudo e mal humorado, percebeu que a experiência traz o aprendizado, e foi aprendendo a essência do companherismo que o pequeno inseto refez os laços de afeto e amizade com os fatores bióticos e abióticos a sua volta. O ar lhe parecia mais leve e gostoso. A chuva, antes esquecida, passava a substituir qualquer maneira de fazer o tempo passar, por sua beleza e musicalidade. A eterna busca por um futuro perfeito pode fazê-lo impróprio e anular o presente. 'Carpe Diem e Carpe Noctum', esse é o lema que a joaninha tenta ensinar até hoje.

Um comentário:

  1. Felisdônio!! Acho que dessa vez você se superou! Achei fantástico o ponto de vista abordado. Um pouco abaxo do nosso eixo de visão, abaixo dos nossos pés. E o que acontece é tão claramente vivido por nós todos os dias. Assim como um filóso, a criança tem a vantagem de ver tudo pela primeira vez. Como seria se, hoje, pudéssemos ver tudo pela primeira vez? Parabéns pelo texto!! Beijão

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