domingo, 27 de março de 2011

Nota poética

As provas
Confundem os instintos
As provas
Mudam as opiniões
As provas
Conseguem até transformar
Uma boa promessa
No que menos se quer...
Um teatro de cobras e camaleões.

Um grande homem não lembra ninguém
É lembrado por quem ele é
Seja lá quem ele for
Por trás, existirá sempre uma grande mulher.

Eis o momento daquela questão
Se você foi, é ou será essa mulher
Depende das cobras e camaleões
Que fornecerem a você as provas
Ou, então, a meu ver, as mais burras suposições.

sábado, 26 de março de 2011

Meus olhos

Ainda não perderam detalhe algum
Ainda conseguem viabilizar a consolidação de minha memória
Ainda te reconhecem depois de ausência longa
Nunca esqueceram do seu rosto
Muito menos confundiram os seus olhos... Muito menos.

...

Os meus olhos ainda não encontraram suas poesias
Mas quando encontrarem, vão querê-las avidamente
Sem, nunca, rasgá-las.

...

Os nossos olhos serão sempre os mesmos:
Os seus, verd'azuis do tipo rel
Os meus, conhecidos de outros tempos
Castanhos, escondidos por trás da metáfora de azul céu.

quarta-feira, 23 de março de 2011

171

Tudo estava diferente. Aquele não era mais ele. Aquele não era mais coerente com as premissas de outrora. Uma mudança incrível aconteceu, infelizmente. Chegou a afirmar que sua composição anatômica não era somente de um padrão diferente, muito menos resultante de uma simples variação. A afirmação foi de que sua anatomia se tornara anômala: não havia mais coração.
Vida boêmia. Sentimento de falta de responsabilidades. Malandro da ponta do único fio de cabelo de seu vértex até a última parte da falange distal de seu dedinho. Com seu corpo, o cuidado era zero à medida que o álcool e o fumo tornavam-se grandes aliados de sua existência. Com sua aparência, não havia muito com o que se preocupar; a natureza até que o ajudava nesse quesito. Calçava seu sapato bicolor, vestia seu terno branco e dava o último toque com o chapéu que lhe era bastante apropriado. Resolveu-se com o passado fazendo delas a peça lúdica de seu quebra-cabeça. As mulheres, agora, eram seu esporte.
Os dias passaram a ser totalmente atropelados pelos reflexos fisiológicos deixados pelas noites usualmente fora de casa. O raciocínio em cima do aprendizado ficou ainda mais devagar, mas malandro é malandro e, por isso, em cima daquilo que era praticado como esporte, a palavra que ele mais falava era "gol". Arrancou de seu dicionário a página que continha a palavra "sentimento", mas nao foi tolo; sabia que "sensualidade" tinha que se manter e, então, a escreveu novamente. Jogou baixo consigo. Sabia disso. Mesmo assim, esse foi o caminho escolhido.
Por fora, sorria. Verdadeiramente, se desprendeu de seus apegos. Conquistava sem a intenção de machucar, mas não estava nem aí para quando o fazia. Agradecia por todas as palavras que sua língua conseguia rapidamente criar, sua maior arma. Trocou literalmente o carpe diem pelo carpe noctum e assumiu sua adesão ao estilo de vida antes imaginado apenas para filmes de glamour. Porém, ele sabia que a felicidade nunca é plena e que a tristeza não tem fim. Sabia tanto que, por dentro, chorava.


É, malandro... Em terra de saci, qualquer chute é voadora. Mas malandra mesmo - que o diga Bezerra da Silva - foi a mulher do saci, pois sabia que mesmo se ele quisesse dar uma banda nela, era ele quem ia cair no chão.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Novela

Um elo
O beijo
Outro elo
Os olhares

Na veia
Teu cheiro
Transladam
No sexo

Encaixe de um
Com outro
No verso
No tato

Enquanto juntos,
Sorriso
Porém mal,
Separados

Eram apenas a xícara
E o bule
Somados à lamentação
De não mais se aproximarem
Como alguém ao usar guardanapo

terça-feira, 8 de março de 2011

Perda de inspiração

Assumo: perdi a inspiração. Para escrever, não basta saber combinar palavras, entender um pouco dos tempos verbais, carregar uma bagagem de sinônimos, hipônimos e hiperônimos. Para escrever, tem que haver muito mais; tem que existir a magia que faz a escrita ser digna de leitura, o borbulhar de pensamentos incessantes, o mar de ideias cujas ondas trazem ao consciente um acervo ilimitado de novas possibilidades. Para escrever, é necessário inspiração. Escrever sem ela não é mais escrever, é puramente responder, relatar, anunciar, notificar... Sei lá, só não é escrever.
O estado de espírito do indivíduo que escreve é obviamente forte influenciador de como serão conduzidas suas inspirações, que podem, ainda, ser concretas ou abstratas. Posso, portanto, fazer jus àquelas e escrever sobre os detalhes, variações de cor e formato de um par de olhos,por exemplo, ou, em cima do mesmo tema e fazendo jus a essas, escrever sobre as questões pertinentes que existem por trás desse par de olhos, como as características que, subjetivamente, enxergo, a beleza que acho, o mistério que não me permite ir ao encontro dos segredos e pensamentos sobre os quais tenho a melhor das melhores intenções. Essa multiplicidade de recursos com que se pode lidar diante de uma inspiração facilita a escrita, mas só faz efeito quando essa inspiração está por perto, mas como disse...
Talvez, eu esteja colocando uma série de pré-requisitos em minha frente para dizer, então, que tenho a inspiração perto de mim, mas é difícil afirmar que a tenho ao meu lado e acreditar nisso se já senti em momentos anteriores maior proximidade do que a de hoje. Sempre fiz parte do time dos quentes e letristas, mas temo, mesmo que não seja para sempre, compreender um pouco mais do universo dos frios e calculistas, visto que a conversa de mim para comigo mesmo tem se tornado cada vez mais frequente e, eu acho, eficaz. Não reclamo, aqui, por conversar mais comigo, mas me questiono sobre o porquê de conversar menos com os outros.
Que fique assim, por fim. Quatro parágrafos tecnicamente amarrados. Com presença de controle total sobre o que fora escrito, modulação plena. Combinação de palavras, paralelismo sintático, tempos de verbos usados de forma compreensível. Um erro ali, outro aqui... Não dá para acertar todas as dízimas de um cálculo matemático. Uma mostra, portanto, de que a facilidade em relatar continua em dia, mas sem a afirmação primordial deixar de ser um fato: "assumo: perdi a inspiração".

sexta-feira, 4 de março de 2011

Minha Única Dança

Nasceu lá, cresceu lá, viveu lá, se achou lá, se fez lá... Fruto de uma grande aventura, ousada e compondo uma geração com costumes bastante diferentes de suas vontades, Mel se fez presente no dia 23/02/1989. Ela estava Lá. Lá era a casa de sua vó e de seu avô, a sua casa; Lá era o lugar em que muitos de seus ideais se fizeram concretos; Lá era o cenário de muitas de suas lembranças, sejam de fato suas ou da geração anterior a dela, também ali desenvolvida; Lá era lá e, ao mesmo tempo, aqui...
Ao abrir os olhos, Mel mostrava ao mundo que não vinha para passear, mas para viajar de acordo com os anseios de sua vida, marcando todo e qualquer lugar que lhe rendera admiração com seus atos e recordações. O mundo se tornou pequeno com sua presença. Seja por uma questão física ou metafísica, o açúcar que lhe fazia Mel parecia ficar cada vez mais doce à medida que os dias se passavam, pedindo que ela fizesse jus à sua missão: tornar incondicional toda a admiração sobre seus olhares diante à vida. Mel era uma criança e dividia a cama com sua irmã e sua mãe. Mel era uma adolescente e se via brigando com sua irmã por questões bobas, com as camas de solteiro não mais juntas como em sua infância. Mel era jovem e, em sua cama, já estudava e planejava as possibilidades de sua vida futura. Mel namorava, vivia, sentia, se emocionava, pensava, chorava, ria e dormia... Tudo naquela cama, naquele jeito, com aquele olhar.
"Lá" era a casa e a casa era "Lá". Momentos de risada foram altamente degustados naquele ambiente. Um dos grandes exemplos de sua vida, seu avô, mostrava, com a ajuda do tempo, como aquele laço de afeto com a casa devia ser formado. Esse exemplo olhava nos olhos de sua neta e achava seus próprios olhos grafados, grifados, gravados. A identificação era mais que grande; a identificação permitia que os dois conseguissem sentir que o que havia ali prolongar-se-ia por todo o tempo, por mais que a vida. O laço, pois, cresceu, cresceu mais, se tornou infinito, representado, então, com um presente dado, um anel. Simbologicamente, aquele presente tinha um propósito, baseado na união sem o sentimento de início e, muito menos, de fim. O tempo, junto a isso, passava. Pessoas nasciam, pessoas morriam, mudanças eram feitas, o desenho não parava...
Lá já não era mais "Lá". Olhares de mudança eram colocados sobre aquele estabelecimento. Seja por questões óbvias ou não, a casa não era mais uma propriedade. Agora, estava lá, mas não mais "Lá". Foi um momento diferente. Aguardado desde que houvera a mudança de olhares; esperado, portanto. Mesmo assim, foi uma mudança bem diferente. O anel se desfizera, tornando-se o sal que marcaria, a partir dali, a ligação do Mar com Mel, forte desde sempre.
O apego de Lá com Mel era por gosto, pelo bem, pela presença eterna de seu exemplo ali. Foi uma transformação, altamente guardada naquele processo de desapropriação, quieta, contida. Não fosse por um belo momento de estouro de potenciais conflitos internos, com direito às mais lindas lágrimas que já vi, possivelmente Mel não mudaria sob aquele ponto de vista, mas Mel entendeu que Lá podia parecer para muitos não ser mais "Lá", porém dentro dela o sentimento de "Lá" se mantinha intacto. Talvez, aqueles segundos de mais pura beleza mostraram o quão pode ser bom não se render à vontade absoluta de não se render. Como sempre, ainda existia Mel sobre os laços de outrora.
Os laços se mantiveram. Os laços deram vez a outras pessoas entenderem como Lá era tão bom, tão rico. Aquele lugar vai ficar na lembrança de Mel para sempre e Mel vai estar na lembrança daquele lugar. Mais uma mudança. Mais um capítulo. Menos rotina. Mais uma viagem. Alta, erguida, de olhos novos, porém mais maduros. Contente, mulher, tranquila, porém esperta. Independente, vitoriosa, prática e alinhada. "Lá" já se tornava o mundo. Logo, Mel se tornou um doce, como as notas de um violino.
Não importa mudança, não importa declínio. Mel vai sempre dar um jeito de ser a dona de seu próprio violino.

domingo, 28 de novembro de 2010

A graça de pecar

Às vezes, o carnaval passa
A folia regride
E tudo fica sem graça

Às vezes, o poeta se senta
Olha para dentro
E a saudade do que não aconteceu o arrasa

Os pecados são sete
A ira, a gula
A inveja, a vaidade
A preguiça, a avareza
E a luxúria

O tempo passa e eu erro
Por mergulhar de cabeça
Em tudo aquilo que bem quero

Quis você
E quis errar

O poeta
O último pecado
Você
Abraçar