Tudo estava diferente. Aquele não era mais ele. Aquele não era mais coerente com as premissas de outrora. Uma mudança incrível aconteceu, infelizmente. Chegou a afirmar que sua composição anatômica não era somente de um padrão diferente, muito menos resultante de uma simples variação. A afirmação foi de que sua anatomia se tornara anômala: não havia mais coração.
Vida boêmia. Sentimento de falta de responsabilidades. Malandro da ponta do único fio de cabelo de seu vértex até a última parte da falange distal de seu dedinho. Com seu corpo, o cuidado era zero à medida que o álcool e o fumo tornavam-se grandes aliados de sua existência. Com sua aparência, não havia muito com o que se preocupar; a natureza até que o ajudava nesse quesito. Calçava seu sapato bicolor, vestia seu terno branco e dava o último toque com o chapéu que lhe era bastante apropriado. Resolveu-se com o passado fazendo delas a peça lúdica de seu quebra-cabeça. As mulheres, agora, eram seu esporte.
Os dias passaram a ser totalmente atropelados pelos reflexos fisiológicos deixados pelas noites usualmente fora de casa. O raciocínio em cima do aprendizado ficou ainda mais devagar, mas malandro é malandro e, por isso, em cima daquilo que era praticado como esporte, a palavra que ele mais falava era "gol". Arrancou de seu dicionário a página que continha a palavra "sentimento", mas nao foi tolo; sabia que "sensualidade" tinha que se manter e, então, a escreveu novamente. Jogou baixo consigo. Sabia disso. Mesmo assim, esse foi o caminho escolhido.
Por fora, sorria. Verdadeiramente, se desprendeu de seus apegos. Conquistava sem a intenção de machucar, mas não estava nem aí para quando o fazia. Agradecia por todas as palavras que sua língua conseguia rapidamente criar, sua maior arma. Trocou literalmente o carpe diem pelo carpe noctum e assumiu sua adesão ao estilo de vida antes imaginado apenas para filmes de glamour. Porém, ele sabia que a felicidade nunca é plena e que a tristeza não tem fim. Sabia tanto que, por dentro, chorava.
É, malandro... Em terra de saci, qualquer chute é voadora. Mas malandra mesmo - que o diga Bezerra da Silva - foi a mulher do saci, pois sabia que mesmo se ele quisesse dar uma banda nela, era ele quem ia cair no chão.
Excelente descrição
ResponderExcluirHá tempos que não leio uma assim
A interdisciplinaridade é incrível
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