Tudo corria na mesma naturalidade de uma manhã quente e agradável. A natureza respeitava seus ciclos e necessidades. O Sol, com seu brilho invejável, animava o grupo de colegas verdes a iniciar seu processo de auto sustentação que, por conseguinte, era responsável pelo equilibrio de toda uma cadeia alimentar. Insetos, como eu, voavam e pulavam. Como toda diversão deve ser preenchida por uma pitada de aventura, os predadores enfeitavam toda a brincadeira com os sustos que nos pregavam. Era a dramatização diária de nossas vidas, um notório teatro.
Estava em início de vida, na batalha, esforçando-me para a presa de cada dia. Um tanto quanto imatura, afinal era uma joaninha que, mesmo ametábola, não passara por certas transformações que só o tempo pode oferecer. Eis que um fenômeno de suma importância para tentativa de busca do almejado equilíbrio acontece, o qual nunca tinha sido presenciado por mim. Insegura mas, ao mesmo tempo, curiosa, a infante joaninha, parada no solo entre diversas amigas gramíneas, observa o movimento de um corpo admirável a favor da gravidade: uma gota.
"- Chuva!" - gritou Lelé, a roseira do fundo do jardim. Foi então que tive contato pela primeira vez com a chuva, um fato conhecido por mim apenas teoricamente, enquanto 'precipitação convectiva ou de origem orográfica' - detalhes da aula de geografia. Um escândalo! Os que podiam, correram e se abrigaram. Os fixos deram início a uma incessante absorção d'água, que em poucos instantes já se encontrava saturada no solo. O pigmento verde que os faziam dignos da vida ficava cada vez mais vibrante. Era a natureza acontecendo.
Ainda parada, não tive muita reação. Sabia que chovia, no entanto não conhecia a chuva. Como se um enorme reservatório tivesse arrebentado no céu, enormes quantidades de água desciam. Ao longo de seu trajetório, essas grandes quantidades passaram a gotas e, finalmente, perto do solo, já eram gotículas que, ao se impactarem no chão, criavam um tipo de som agradável. Ora um Lá, ora um Si, às vezes um Dó... Aquele fenômeno, assustador porém intrigante, ia se tornando um concerto, uma orquestra, uma sinfonia. Agradava a mim e a meus colegas verdes.
A joaninha cresceu, tornou-se adulta e logo era responsável por muitas tarefas. As chuvas não mais lhe chamavam a atenção, seus antigos companheiros de habitat não eram mais presentes em sua vida psicologicamente, enfim, assim como com a maioria, o sistema lhe engoliu. Ela só pensava em trabalho. O individualismo passou a fazer parte de sua conduta. A cooperação de todos foi esquecida. As diferenças físicas e comportamentais dela e seus antigos colegas não mais eram importantes, muitas vezes confundiam-se com conceitos segregacionistas. Os olhos de criança, puros e curiosos, se corromperam. Tratavam-se , então, de conceitos pré-formados e subjugação. Uma grande mudança no ponto de vista.
Com o decorrer da vida e os obstáculos que ela lhe impos, a infante joaninha que passara a um ser carrancudo e mal humorado, percebeu que a experiência traz o aprendizado, e foi aprendendo a essência do companherismo que o pequeno inseto refez os laços de afeto e amizade com os fatores bióticos e abióticos a sua volta. O ar lhe parecia mais leve e gostoso. A chuva, antes esquecida, passava a substituir qualquer maneira de fazer o tempo passar, por sua beleza e musicalidade. A eterna busca por um futuro perfeito pode fazê-lo impróprio e anular o presente. 'Carpe Diem e Carpe Noctum', esse é o lema que a joaninha tenta ensinar até hoje.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
Aquarela da vida
Mais um dia acaba de nascer. Acabo e começo, a todo momento, um novo ciclo em minha vida. São as metamorfoses pelas quais, dia após dia, eu passo. No entanto, tais transformações não se consistem em cima de uma aparência, elas se baseiam nas pequenas, porém várias, perguntas que o interior faz a si próprio. Ora meus pensamentos e vontades pedem inquietudes, companhia, conversa e animação, ora as conversas são de mim comigo mesmo. "Uma solidão própria, escolhida. Como a que a gente precisa de tempos em tempos", diria um grande amigo.
Pois é... O ser humano não é absoluto. Às vezes, falamos coisas com as quais não concordamos, às vezes, seguimos caminhos que não desejamos e, às vezes, um beijo não é passível de um belo romance. Outrora, nos impomos, fazemos das palavras um espelho de nossos anseios, desejamos algo e o fazemos. Relatividade, todos nós a temos conosco. Somos como um aquarela, diria. Ela, somente existente quando há a reunião de cores e uma peça para a sustentação de tais. Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros. Pensamos de uma forma, pois outros pensam de outra. Concordamos com uma idéia, pois outros concordam com outra. Gostamos de alguma coisa, pois existe gosto para tudo. Mas que coisa complicada essa de ser humano, não? Antes a complicação do que a uniformidade! Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela.
Um outro fator, intrínseco, é claro, à aquarela de nossas vidas, é a obra por ela pintada. Composta por diversos quadros, a vida é a representação - ah! quem dera fosse sem comedimentos - dos pontos de vista e das fases em que nos inserimos. Bem como Picasso, que passou, durante sua carreira, por diversas fases, com destaque para o Cubismo e A Fase Azul, nós também fragmentamos os planos e nos entristecemos. A questão é que, mesmo com atitudes consideradas errôneas, sem perspectivas, a felicidade está no fato de sabermos a todo instante que há um desafio: o de largar o que não presta e se apegar às oportunidades. E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura.
O "eu" de todos nós é composto por vários, assim como uma aquarela. Questiono, então, alguns desses que moram dentro da gente. Seria melhor se abafássemos alguns deles? Se deixássemos aqueles cujos desejos são os mais proibidos sobressair? O que seria melhor, realmente não sei. Só sei que, quando pequeno, gostaria de ter desenhado, na escola, o meu céu e a minha árvore respectivamente com colorações laranja e azul, sem ter uma psicóloga falando no ouvido de meus pais quais são os padrões para a normalidade.
Pois é... O ser humano não é absoluto. Às vezes, falamos coisas com as quais não concordamos, às vezes, seguimos caminhos que não desejamos e, às vezes, um beijo não é passível de um belo romance. Outrora, nos impomos, fazemos das palavras um espelho de nossos anseios, desejamos algo e o fazemos. Relatividade, todos nós a temos conosco. Somos como um aquarela, diria. Ela, somente existente quando há a reunião de cores e uma peça para a sustentação de tais. Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros. Pensamos de uma forma, pois outros pensam de outra. Concordamos com uma idéia, pois outros concordam com outra. Gostamos de alguma coisa, pois existe gosto para tudo. Mas que coisa complicada essa de ser humano, não? Antes a complicação do que a uniformidade! Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela.
Um outro fator, intrínseco, é claro, à aquarela de nossas vidas, é a obra por ela pintada. Composta por diversos quadros, a vida é a representação - ah! quem dera fosse sem comedimentos - dos pontos de vista e das fases em que nos inserimos. Bem como Picasso, que passou, durante sua carreira, por diversas fases, com destaque para o Cubismo e A Fase Azul, nós também fragmentamos os planos e nos entristecemos. A questão é que, mesmo com atitudes consideradas errôneas, sem perspectivas, a felicidade está no fato de sabermos a todo instante que há um desafio: o de largar o que não presta e se apegar às oportunidades. E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura.
O "eu" de todos nós é composto por vários, assim como uma aquarela. Questiono, então, alguns desses que moram dentro da gente. Seria melhor se abafássemos alguns deles? Se deixássemos aqueles cujos desejos são os mais proibidos sobressair? O que seria melhor, realmente não sei. Só sei que, quando pequeno, gostaria de ter desenhado, na escola, o meu céu e a minha árvore respectivamente com colorações laranja e azul, sem ter uma psicóloga falando no ouvido de meus pais quais são os padrões para a normalidade.
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