Mais um dia acaba de nascer. Acabo e começo, a todo momento, um novo ciclo em minha vida. São as metamorfoses pelas quais, dia após dia, eu passo. No entanto, tais transformações não se consistem em cima de uma aparência, elas se baseiam nas pequenas, porém várias, perguntas que o interior faz a si próprio. Ora meus pensamentos e vontades pedem inquietudes, companhia, conversa e animação, ora as conversas são de mim comigo mesmo. "Uma solidão própria, escolhida. Como a que a gente precisa de tempos em tempos", diria um grande amigo.
Pois é... O ser humano não é absoluto. Às vezes, falamos coisas com as quais não concordamos, às vezes, seguimos caminhos que não desejamos e, às vezes, um beijo não é passível de um belo romance. Outrora, nos impomos, fazemos das palavras um espelho de nossos anseios, desejamos algo e o fazemos. Relatividade, todos nós a temos conosco. Somos como um aquarela, diria. Ela, somente existente quando há a reunião de cores e uma peça para a sustentação de tais. Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros. Pensamos de uma forma, pois outros pensam de outra. Concordamos com uma idéia, pois outros concordam com outra. Gostamos de alguma coisa, pois existe gosto para tudo. Mas que coisa complicada essa de ser humano, não? Antes a complicação do que a uniformidade! Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela.
Um outro fator, intrínseco, é claro, à aquarela de nossas vidas, é a obra por ela pintada. Composta por diversos quadros, a vida é a representação - ah! quem dera fosse sem comedimentos - dos pontos de vista e das fases em que nos inserimos. Bem como Picasso, que passou, durante sua carreira, por diversas fases, com destaque para o Cubismo e A Fase Azul, nós também fragmentamos os planos e nos entristecemos. A questão é que, mesmo com atitudes consideradas errôneas, sem perspectivas, a felicidade está no fato de sabermos a todo instante que há um desafio: o de largar o que não presta e se apegar às oportunidades. E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura.
O "eu" de todos nós é composto por vários, assim como uma aquarela. Questiono, então, alguns desses que moram dentro da gente. Seria melhor se abafássemos alguns deles? Se deixássemos aqueles cujos desejos são os mais proibidos sobressair? O que seria melhor, realmente não sei. Só sei que, quando pequeno, gostaria de ter desenhado, na escola, o meu céu e a minha árvore respectivamente com colorações laranja e azul, sem ter uma psicóloga falando no ouvido de meus pais quais são os padrões para a normalidade.
Félix, que bonito texto!
ResponderExcluir"Nós, distintos seres apenas existentes por conta da existência de outros." Me remeteu ao filme Na Natureza Selvagem, onde a busca pela não dependência dos laços afetivos e das relações humanas resultou em fracasso. A existência, assim como a felicidade, só é possível quando compartilhada.
"Somos como um aquarela, diria." A aquarela realmente está em você, felipe. O melhor é que possamos cada vez mais deixar acrescentar novas cores à nossa aquarela, para que novos tons possam ser criados e novas possibilidades de pinturas se mostrem em nosso interior.
Parabéns pelo texto! Intrigante reflexão.
Rei, rei...
ResponderExcluirfalou uma coisa mais cedo sobre o texto. verdade...
"ou entende ou isola", nao com essas palavras, mas foi isso resumidamente.
esse foi o seu texto que eu mais gostei. serio mesmo.
Tem essa sinceridade que a gente costuma só ter pensado sozinho, num elevador vazio, ou num passeio de bicicleta pela orla.
"Afinal, trata-se de uma ilusão, nunca singela."
dizem as vezes que é um jogo.
mas como jogar cansa...
se não é que enche o saco, com o perdão da expressão.
pois é...
parabéns!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirÓtimo,Felipe!
ResponderExcluirA parte que eu mais gostei:
"E mais: a felicidade só se mantém grandiosa porque continuamos a fragmentar os planos, porque nos entristecemos, enfim, porque erramos. Os erros fazem parte da vida. Eles fazem parte do que, mais tarde, será considerado uma bela pintura."
Realmente, a felicidade se torna grandiosa justamente pelos desafios,sacrifícios e os erros com os quais sempre aprendemos!
Inclusive:a fragmentação dos planos que por nós muitas vezas são concretos,nos ajuda sempre a encontrar a nossa pintura,nossa missão!
Grande abraço,
Digão
De que adiantaria uma aquarela apenas cor-de-rosa?
ResponderExcluirA presenca das cores obscuras se faz necessaria, faz parte da vida, e faz parte da arte. Concordo plenamente com a reflezao proposta, parabens pelo texto!
MaryJane, do devaneios... (;