segunda-feira, 2 de março de 2009

Em meu relógio, apenas os segundos.

Era um momento daqueles... Ela chega, eu paro. Fito-a, do outro lado da calçada, de forma insaciável, incomparável, incansável... Ela, abundada em luxo e elegância, tira os óculos da cabeça, arruma o cabelo, põe os óculos e dá uma olhada, já apressada, no relógio de pulso em sua mão esquerda. Seus movimentos me atraem, sua postura me impressiona e sua voz... Sua voz é linda. Se eu já a ouvi? Não, ainda não. Mas meus pensamentos me permitem imaginar a doçura daquilo que nela ainda não vejo. O sinal abriu. Nós pudemos, então, atravessar. A cada passo, mais fortes, mais acelerados e mais imponentes eram meus batimentos cardíacos. A cada passo, mais linda ela ficava com seus cabelos soltos levemente ondulados. A cada passo...
- Perdão! A senhora poderia me arranjar uma moeda?
Pois é. Saindo um pouco de meus pensamentos, de minha ilusão, existia uma grande barreira, tão forte quanto chumbo, que me distanciava da moça, mesmo em uma situação paradoxal como o esbarrão, cuja distância foi nula, quase íntima. Ela era rica, e eu, pobre. Com minha lata na mão, fiquei ali, no meio da faixa de pedestres, enquanto ela ia embora. Foi quando minha amada chega na calçada em que eu estava, pára, olha pra trás, olha pra mim e me chama. Saí correndo, não mais pensando na moeda ou em qualquer outro tipo de ajuda financeira. A mim, interessava apenas uma coisa: a retribuição do meu amor. Sim. Amor. Durante aquele momento, a amei. Amei aquela moça. Um sentimento que vinha de dentro, nascia em minhas entranhas.
- Está aqui a sua moeda, menino. Qual é o seu nome?
- Pedro, senhora. Meu nome é Pedro.
- E cadê a palavrinha mágica?
- Obrigado, senhora.
- Não precisa me chamar de senhora. Agora, vá. Nunca deixe de estudar, Pedro.
Foi lindo. Eu senti. Senti que amei e que fui amado. Ela me amou tão profundamente quanto eu a amei. Ela era linda. Sei também que, naquele momento, eu também fui. Vivo na rua porque quero. Vivo na rua porque adoro ter vários amores e ser amado por várias. Venho da vadiagem, dos becos de escuridão. Será loucura? Obsessão? Não sei. Só sei que mais valem os segundos diários de meus sinais do que uma vida pacata e sem amores.
Ah... a voz dela era linda.