quarta-feira, 27 de maio de 2009

Errar com um humano

Um fênomeno: a concepção. Incríveis e árduas são a vontade do corpo manter sua existência na Terra e as maneiras com as quais tal manutenção ocorre. Singamia, Cariogamia, formação do embrião. Sucessivas clivagens e o rascunho do que mais tarde virá a ser o resultado da incessante vontade do organismo perpetuar sua espécie está pronto. A intenção não é romancear o simples crescer de uma barriga, o carregar de um pequenino ser - dependendo do ponto de vista, de um parasita -, mas sim de refletir até que ponto se pode manipular a vida, ou melhor, a morte... Tento não confluir meus pensamentos para fatores, diria, subjetivos, como "o que é certo e o que é errado", no entanto me pergunto: seria justo controlar, seja na própria ou na vida de outros, quando e como fechar-se-ão os olhos sem o novo despertar para mais uma manhã?

...

Era só um menino. Crescera com a mãe, fora educado pela mãe, nunca lhe faltou nada. "Mamãe, estou com fome" ; "Mamãe, estou com sede" ; "Mamãe, é natal. Quero uma bicicleta nova." . Todos os pedidos, implícitos ou explícitos, eram atendidos. Sem titubear, "mamãe" estava sempre ali. O menino cresceu. Se deparou com barreiras, dificuldades, responsabilidades. Superou-as, venceu-as, cumpriu-as. Tinha tudo para ser mimado, mas conseguiu enxergar o que, muitas vezes, os olhos não veem : Não precisamos errar para aprender.
O menino, junto de sua mãe, em um dia festivo como esses de feriados, comemorações célebres etc, já em sua mocidade, passou a tarde conversando. Com ela, almoçou, riu, ficou em silêncio, falou sobre problemas, assuntos sérios... Enfim, nada passava de um encontro informal entre filho e mãe. Enquanto falavam-se de problemas alheios, não em tom de fofoca, mas com ar de preocupação por parte de Maíra - a mãe -, afinal de contas tratava-se de alguém com enorme zelo e preocupação com as pessoas a seu redor, foi citado o caso de uma amiga que vinha sofrendo ameaças de seu marido e que até a um aborto ela foi submetida quando tinha 17 anos, por pressão de seu conjuge.

- "Que absurdo. Dois absurdos, né, mamãe?! Engravidar aos 16 anos e concordar com um aborto."

Dois segundos se passaram e os olhos de Maíra pareciam trazer das profundezas de seus interiores uma verdade há muito tempo oculta. Rápido, porém intenso e altamente epifânico foi o sentimento de Maíra, analisado por Liseri e repensado por várias vezes após o episódio.

- "Acho que você já tem idade para saber de uma coisa, Liseri... Sua mãe já fez um aborto."
- "Você, mamãe?!?!"
- "Pois é, meu filho... quando somos novas e inseguras, acabamos aceitando determinadas imposições por fraqueza ou falta de experiência."

O papo, naquele momento, foi cessado. Liseri ficou espantado. Afinal, acabara de saber que o irmão por ele sempre sonhado e, depois de uma certa idade, impossível, existiu. Existiu, mas nem ele nem ninguém, além do médico que o retirou da barriga de sua mãe como se fora um verme, um parasita, pôde conhecer seu irmão. Nada foi comentado. Nada foi perguntado. Quem foi o pai, há quanto tempo isso tinha acontecido... Nada. Apenas a informação necessária, naquele momento, foi dada. Sua mãe fizera um aborto e, consequentemente, eliminara a vida de seu irmão.

Liseri cresceu e seguiu seu caminho como qualquer pessoa. Conseguiu uma vida digna e honrada a partir de seu trabalho. Mesmo assim, Maíra nunca deixou de se preocupar com seu filho. Sempre ligava, tentava cuidar, mesmo quando sem necessidade, em suma, era mãe. Liseri se conformava com a fato de mães, em geral, constituirem um grupo bem à parte no que diz respeito aos cuidados com seus filhos, mas depois da confissão, ele se pegava pensando na possibilidade da superproteção, do mimo de sua infância e outras coisas mais ligadas à Maíra estarem relacionadas ao possível arrependimento pelo qual ela passava desde a má interpretação de sua primeira concepção - leia-se: parasitismo - .

...

Foi justo? A resposta não pode se sustentar na simples vontade de Liseri ter um irmão quando mais novo, e sim na profundidade em que as consequencias de seu assassinato se consistem. Isso. Mataram-no, em bando, sem o direito de defesa, friamente e bastante calculado, principalmente por parte do negociante de medicina, que esperava receber sua recompensa após tal virtuosa feitura.. Por isso, assassinato.

Nota: Errando, sempre se aprende.

Perdoe a parcialidade.

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